HOLLY GOLIGHTLY
OS STANDARDS DA SENHORA GOLIGHTLY
A rapariga começou carreira nos Thee Headcoats de Billy Childish, a rapariga gravou com os White Stripes. Pois, parece que sim, mas isso não interessa. Holly Golightly tem a rara capacidade de escrever canções que soam a standards de outros tempos. “Slowly But Surely” é um magnífico exemplo disso mesmo. Eis o que interessa.
Audrey Hepburn era Holly Golightly em “Breakfast At Tiffany’s”. Holly Golightly foi o nome que uma jovem se lembrou de dar à filha recém nascida. A criança cresceu, chegou à adolescência e começou a coleccionar velhos singles de soul e r&b. Eis que entra em cena Bruce Branch, baterista dos Thee Headcoats de Billy Childish. Um dia, Golightly decide investigar o ritmo das baquetas do namorado e acaba a noite cantando em palco. Juntar-se-ia aos Headcoats e, mais tarde, iniciaria uma carreira a solo – o resto, como dizia o outro, é história. Só que o outro, neste caso, está errado. Quase com dez anos de carreira, Holly Golightly gravou uma canção folk com dois amigos. Para muitos, é aqui que começa a história. “Well It's True That We Love One Another”, “Elephant”, White Stripes. Depois de juntar a sua voz ao sarcasmo de despedida do último álbum dos White Stripes, Holly Golightly começa a ser mais que personagem de filme conhecido.
Isto é, em traços gerais, a biografia – e é o que menos interessa. Em frente então. Quem é realmente Holly Golightly? Podemos dizer que é a versão soul/r&b, a preto e branco, das cores saturadas da “parisiense” April March. Ou que é uma cantora de swing dos anos 40 actuando em festivais de garage rock mundo fora. No fundo, não interessa o que é realmente. Interessa que “Slowly But Surely”, o seu novo álbum, tem aquela capacidade rara de transformar originais que nunca ouvimos em standards que o mundo não inventou. Ela diz que praticamente não ouve música posterior a 1960 e, pelo que o disco mostra, não só não duvidamos, como não nos preocupamos com a assumpção do obscurantismo. O presente é o que quisermos fazer dele, diz-nos o outro tentando emendar a mão. Desta vez, fazemos-lhe a vontade. Fazemo-la logo que ouvimos a voz de Golightly, ampla e etérea, de uma doçura espectral, cantando o amor amaldiçoado de “On The Fire”. Consideramos que, muito provavelmente, até terá razão quando chegamos a “My Love Is” e ouvimos aquele mistério feito de um estalar de dedos compassado, contrabaixo tocado na escuridão e palavras ecoando de lugar distante – o “Fever” de Presley com sotaque feminino.
Em “In Your Head” já nem queremos saber qual a verdade no meio disto tudo. Estamos ocupados demais a dançar uma valsa para “Nuggets”, Farfisa espalhando raios sonoros, guitarra piscando olho aos Seeds e Golightly repetindo, insistente, “It’s all in your head” (e é, e é). Se, logo depois, “Slowly But Surely” não for simplesmente mais uma balada, mas sim soul enfeitiçada, lento rodopio repetindo um óbvio transformado em algo mais - “slowly but surely / time goes by” -, se essa canção for isso então que se dane a contemporaneidade e venha o outro, o tal, a nossos braços. “Slowly But Surely” é um concentrado de soul, country, rock’n’roll e sons de girl-group que não precisa do presente para se justificar - e Holly Golightly uma alma que, cantado de um lugar sem tempo, dá aos espectros pairando sobre o que canta aparência palpável.
Mário Lopes
(Mondo Bizarre # 20)
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