IAN BROWN
NA ÓRBITA DO MACACO
Ian Brown, o ex-vocalista dos Stone Roses está de regresso. "Music Of The Spheres", o seu quarto álbum, é um disco onde a elegância pop se conjuga com fortes grooves que convidam à dança.
Em 1989 os Stone Roses editavam o seu homónimo primeiro álbum. O disco foi o continuar da febre da cena de Manchester e o culminar de uma data de peripécias mais ou menos bizarras, como aquele dia em que o grupo entrou nos escritórios da sua, então, editora e os encheu de tinta azul. Mais tarde saiu "Second Coming", que não conseguiu suplantar as expectativas deixadas por tão auspiciosa estreia. Desfeitos os Stone Roses, Ian optou por uma carreira a solo. Não isenta de aventuras, - o músico esteve preso algum tempo na mancuniana prisão de Strangeways, celebrada no título do derradeiro álbum dos Smiths -, a vida a solo de Brown como artista em nome próprio começou com "Unfinished Monkey Business", um disco engraçado mas que se nota ser um meio de procura de uma identidade. Essa identidade, ainda que sem rejeitar o legado dos Stone Roses, chegou no álbum seguinte, "Golden Greats". A temática do disco centrava-se num dos tópicos favoritos de Ian - a história natural e a evolução das espécies, havendo mesmo uma canção dedicada aos seus dois animais favoritos, o golfinho e o macaco: "Dolphins Were Monkeys". O som perpetuava essa mistura ecléctica, funcional e cativante entre pop e as linguagens de dança que os Stone Roses tinham começado. Mas Ian Brown juntou ao entusiasmo juvenil do Roses, a serenidade, a elegância dos arranjos e uma produção luxuriante mas que não abafa as canções. Entre os dois álbuns ficou a participação no projecto Unkle, para o qual Ian Brown contribuiu com as vocalizações de "Be There", tema que não consta do álbum "Psyence Fiction" mas apenas do single com o mesmo nome. "Be There" é uma canção deliciosa que se guarda na memória, como, aliás, todo os outros temas dos Unkle.
"Music Of The Spheres", o novo álbum, não é o melhor disco do mundo, mas é suficientemente estimulante para merecer audições repetidas. Toda a estrutura base do disco foi escrita, concebida e tocada por Ian Brown, provando o quão versátil o músico pode ser. A gema do disco é "The Gravy Train", uma canção fresca, dançável, cativante, sem excessos e com entrada directa para as melhores do ano. "Music Of The Spheres" emparelha com "Wonderland", dos Charlatans, mesmo que este lhe seja ligeiramente superior, no capítulo dos bons discos feitos por gente que se tornou visível a partir da madchester scene. Como curiosidade refira-se que a capa (uma imagem ampliada de uma das retinas de Ian) e o título de "Music Of The Spheres" se relacionam com a organização Sight Savers que se dedica ao combate das cataratas e ao restauro da visão em países subdesenvolvidos. Por causa disso, Ian Brown adoptou uma peculiar estratégia de promoção: nas entrevistas, por cada pergunta que lhe é feita, cobra 15 libras. 15 libras é o valor necessário para devolver a visão a uma pessoa. Todo o dinheiro conseguido com as entrevistas de Ian Brown será entregue à Sight Savers. Uma vez que "Music For The Spheres" já atingiu o terceiro lugar do top britânico, as previsões para esta acção de beneficência revelam-se animadoras.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 9)
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