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IGGY POP
ASSUMIR A PATERNIDADE
Iggy Pop voltou a sacar do compêndio, desta vez para relembrar como se faz a coisa, uma espécie de revolução sem sangue. Senhoras e senhores... “Skull Ring” é o testemunho.

Se recuarmos trinta anos no tempo, constatamos que não havia tropas americanas no Iraque, os homens tombavam sim, mas no Vietname e a América levitava sobre uma densa neblina psicótica. Em Detroit, James Newell Osterberg (mais tarde Iggy Pop) e os Stooges contrapunham com uma música dura e áspera, pronuncio do “no future”, inspirada em disfunções sociais e drogas duras, abordando temas sintomáticos do abandono e recusa de uma geração que baloiçava no fio da navalha.

Na mesma cidade, os MC5 eram também mestres-de-cerimónias de uma certa celebração, que invocava a liberdade de escolha e de expressão, contestação e rebelião. Essa seria a atitude que estaria na génese do punk rock e da sua elevação no final da década de 70. Na década seguinte o rock converteu-se numa espécie de circo de raridades e caricaturas, a própria obra de Iggy durante esse período é fértil em deslizes e casos infelizes de incoerência e desnorte criativo, deambulando entre a new wave e o hard rock de gosto duvidoso, provando que o homem andou de facto perdido durante uma longa dezena de anos, arriscando-se seriamente a uma conotação irreversível e pouco abonatória com alguns canastrões do rock’n’roll. Porém, o grande patriarca do punk sobreviveu a todos os venenos e maleitas e o início da década de 90 prometeu trazê-lo de novo para o terreno onde melhor se sabe mover. Em “Brick By Brick” e “American Caesar” editados respectivamente em 1990 e 93, Iggy voltaria a acordar o monstro rock inato, com dois discos coesos que devolveriam ao músico alguma da credibilidade perdida. O resto da década seria de novo inconsequente, com Iggy a tropeçar em cada disco que fazia e em alguns casos a roçar os limites do bom senso.

De tropeção em tropeção acabamos por esmurrar o nariz no novíssimo “Skull Ring”, gravado num contexto e conjunturas bastante simpáticas para qualquer artista de rock, e que constitui um potente exercício de estilo, mas que guarda a amarga sensação de que não pode envelhecer tão bem como os clássicos de Iggy com os Stooges da década de 70. Consequência de algum fervor revivalista, não espanta que Iggy reapareça em cena com um disco do calibre de “Skull Ring”, onde não só ressuscita os emblemáticos Stooges, mas traz também à tona alguns produtos after-punk como Peaches, a rainha do electro-punk, ou os bens parecidos Green Day e Sum 41, também eles ingredientes de última geração cozinhados à pressa no requentado caldeirão do punk rock. Sinal dos tempos e acima de tudo sinal de que a indústria não dorme.

Polémicas à parte, “Skull Ring” tem todos os condimentos necessários a um excelente disco, os primeiros acordes de “Little Electric Chair” remetem para “Search And Destroy”, o groove da batida de “Skull Ring” para “Down On The Street”, o loop acústico de “Til Wrong Feels Right” para o drone oriental de “We Will Fall”. Depois há outros ingredientes que azedam a coisa, um deles a excessiva duração do disco, outro, a companhia de alguns jovens menos recomendáveis.

De qualquer forma, Iggy assume aqui como que uma legítima paternidade de uma geração criativa, falamos dos White Stripes, Strokes ou Yeah Yeah Yeahs, vendo os seus discípulos brilhar num contexto em que o rock deixou para trás alguma ingenuidade e as causas para perder a longo prazo, mesmo que nos sejam oferecidas num papel de embrulho venenoso que nos tenta ainda convencer de que estes são frutos de resquícios de algum espírito subversivo de outrora e que ainda podem contaminar o contínuo e longo processo de dominação das massas, ou criar compartimentos cerebrais onde se desenvolve o espírito de combate às normas instituídas. Nada de mais errado, essas deixaram de ser as funções do rock.

Há no entanto que entender mais a fundo a importância de um disco como “Skull Ring”, para além do seu conteúdo musical, numa altura em que alguns subgéneros envenenados do rock perdem terreno (e que bom é constatar esse facto) para um rock inteligente e directo, sem subterfúgios numa intelectualidade elitista que muito poucos entendem e que só acelera a encomenda do funeral do rock’n’roll. É certo que a indústria já esfrega as mãos e já se apoderou da galinha dos ovos de ouro e é legítimo que Iggy se aproveite dos Stooges e vice-versa e que ambos apanhem o lugar que lhes pertence no comboio, mas quem se importará verdadeiramente... não há nenhum motim nas previsões do índice Dow Jones.

Paulo Coelho
(Mondo Bizarre # 17)