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INTERPOL / RADIO 4
Brooklyn Rocking Beats
Com um som derivativo do pós-punk dos Joy Division ou dos Chameleons, os Interpol estampam ardor e penúria em "Turn on the Bright Lights". Os Radio 4 são a actualização do som de guitarras com muito groove. O disco "Gotham!" é um manifesto sonoro. Nova Iorque viu nascer ambos os grupos e cedo os centrifugou na sua máquina de fabricação de sonhos.

Nova Iorque é, hoje, uma cidade gasta, diluída na hibridez artística, afundada no infortúnio mediatizado, mas prontamente renascida do útero cosmopolita que esteve na sua génese. Foi da sua superfície elástica que irromperam duas bandas com edições discográficas no corrente ano. Os Interpol surgiram em 1998 com Daniel Kessler (guitarra e voz) e Greg na formação. Mais tarde, Kessler recrutou Carlos Dengler (baixo e teclados) e Paul Banks (guitarra e voz). Depois das primeiras actuações no início de 2000, Greg abandonou a bateria, que viria a ser ocupada por Sam Fogarino. Durante esse ano e o seguinte, trilharam uma rota de concertos, fazendo a primeira parte de bandas como ...And You Will Know Us by the Trail of Dead, Arab Strap, The Delgados e The Faint. Em Abril de 2001, uma pequena digressão pelo Reino Unido foi apoiada por uma aparição no programa de John Peel para a BBC. Os Interpol estavam a promover um EP de edição limitada que haviam lançado através da Chemikal Underground. Tinham já marcado presença, também, na compilação "Clooney Tunes" para a editora indie Fierce Panda. Ainda no decurso desse ano, editaram mais um EP e contribuíram para uma outra compilação - "This Is Next Year" da Arena Rock - ao lado de formações nadas e criadas em Brooklyn, como os They Might Be Giants, Les Savy Fav, Elk City, Enon e Nada Surf.

Com a edição de "Turn on the Bright Lights" de 2002, os Interpol vêem a sua obra ser atravessada por alusões ao universo escuro, sofrido e penetrante dos Joy Division. Como se a Nova Iorque de hoje, pitoresca e frenética, um caleidoscópio de formas e luzes, fosse subitamente pintada a óleo e sucedesse à negritude febril da Manchester de então. A música inclusa neste disco está polvilhada de cinzentos e sombras justapostas. A tensão floresce no intervalo das canções e não se chega a construir um canal para onde se possam escoar a frustração e o vazio. A secção rítmica do tema 'Say Hello to the Angels' assemelha-se à de 'This Charming Man' dos Smiths. A canção é um propulsor de energia descompassada, um apelo impetuoso às entidades celestes depois de uma mal sucedida contenda com os arquitectos das profundezas. Depois da toada instrumental que abre o álbum, é em 'Obstacle 1' que Paul Banks quase decalca o registo de voz de Ian Curtis. A espessura do tema é dissonante do resto do disco, chegando a assumir um espaço psicológico, personificado mais adiante em 'Stella Was a Diver and She Was Always Down'. O plasma visual e sonoro fica composto com a faixa de encerramento ('Leif Erikson'), uma cavalgada de notas sobre um tom quase eclesiástico, que fica a dever-se ao crescendo de teclados.

Os Radio 4 revisitam a herança dos Gang of Four, Mission of Burma e P.I.L., misturando guitarras de precisão cirúrgica com anotações de ritmo e uma demarcada sensibilidade política. Formados em 1999 pelo guitarrista Tommy Williams, o baixista Anthony Roman, o baterista Greg Collins, o teclista Gerard Garone e o percussionista P.J. O'Connor, rapidamente gravaram um EP para a Gern Blandsten de New Jersey. "The New Song and Dance", o disco de estreia, produzido por Tim O'Heir, que trabalhara com os Sebadoh e os Buffalo Tom, ajudou os Radio 4 na tarefa de afirmação no espectro nova-iorquino de bandas. O álbum foi editado em 2000 e a ele seguiu-se uma digressão nos Estados Unidos com os Dismemberment Plan. No início do ano seguinte, a formação regressou ao estúdio com o mesmo produtor para gravar o EP "Dance to the Underground". A remistura do tema-título apontou um novo rumo para os Radio 4, reforçando a exploração do rock mesclado com a dança, apontamentos de dub, linhas de baixo secas e insistentes e uma ambiência funk. Depois, os Radio 4 uniram esforços para a gravação do segundo álbum, "Gotham!", com o duo de produção DFA, composto por Tim Goldsworthy e James Murphy, que reclamava experiência na labuta com artistas electrónicos (como David Holmes e o projecto U.N.K.L.E. de James Lavelle) e bandas como os Rapture e os Primal Scream. "Gotham!" foi concebido numa altura em que o então major de Nova Iorque havia decretado novas leis que regulamentavam e restringiam a dança nos clubes da cidade. É um disco militante que reivindica uma maior preocupação pela comunidade artística (em 'Save Your City') e uma discussão mais aberta por parte dos media sobre o vírus da Sida (em 'Start a Fire'). De resto, trata-se de um trabalho saturado de referências revolucionárias, pontuadas por batidas fortes, pulsantes e tantas vezes sintetizadas. 'Eyes Wide Open' e 'Calling All Enthusiasts' são os temas mais exuberantes e cerrados de "Gotham!", enquanto 'Pipe Bombs' e 'Speaking in Codes' constituem as entradas hipnóticas e descodificadas na revolta sinfónica.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 13)