ISOBEL & LANEGAN
OS OPOSTOS ATRAEM-SE
Ela, Isobel Campbell, foi durante largos anos elemento fulcral dos Belle & Sebastian. Ele, Mark Lanegan, foi o líder dos Screaming Trees, e é figura de proa dos Queens Of The Stone Age. Individualmente, têm as suas carreiras a solo. Juntos apresentam um dos mais inesperados e belos registos da temporada, “Ballad Of The Broken Seas”.
Conheceram-se, reza a lenda, nos bastidores de um concerto dos Queens Of The Stone Age (QOTSA) na Escócia, terra natal de Isobel Campbell. Mark Lanegan, o dono da voz soturna de alguns temas dos QOTSA, assumiu-se como fã de Isobel e sugeriu à outrora cantora e violoncelista dos Belle & Sebastian gravar alguns temas em conjunto. A ex-musa de Stuart Murdoch entusiasmou-se e começou a escrever canções para um disco do par. Devido à distância espacial dos dois (Glasgow-Los Angeles), a elaboração e real desenvolvimento das canções ocorreu maioritariamente através da Internet.
Considerada uma das mais delicadas vozes da pop alternativa, Isobel Campbell era peça central dos Belle & Sebastian. Cara-metade do vocalista Stuart Murdoch, alguma da essência da banda residia no casal e na constante devoção que o líder dos escoceses prestava à sua musa de então. Em 2002, fim de ciclo nos Belle & Sebastian com o término do relacionamento entre os dois e a saída de Isobel da banda. Depois, no caminho de Isobel houve os Gentle Waves e surgiu “Amorino”, belíssimo disco de estreia a solo.
Mark Lanegan foi líder dos Screaming Trees, uma das oportunidades falhadas da geração grunge. Têm descendência actual, por exemplo, nos já referidos QOTSA, onde Josh Homme, inteligentemente, foi recrutar a cavernosa voz do músico para algumas gravações e concertos. Ao longo dos anos Lanegan foi ainda gerindo uma carreira a solo com prova maior nos discos “Scraps At Midnight” e “Bubblegum”.
Eis então “Ballad Of The Broken Seas”, junção inesperada de duas personalidades distintas, espacial e musicalmente opostas, mas que formam, inesperadamente ou nem tanto, uma das parelhas musicais mais felizes dos tempos mais recentes. Não se pense, no entanto, que “Ballad Of The Broken Seas” é um disco fácil.
Longe disso. Recheado de pequenas subtilezas que se vão descobrindo à medida que o número de audições aumenta, por aqui tenta-se um cruzamento de country com blues, globalmente falando. Mas não só. Campbell e Lanegan vão-se confrontando ao longo do disco, confessando dramas, amores, desamores. A vida, a morte, e o desengano disto tudo, afinal de contas os maiores leit-motiv para os grandes cançonetistas de sempre.
Ela e ele, Isobel Campbell e Mark Lanegan, sensibilidade e rudeza, paraíso e inferno, água mineral e whisky, antagonismo total e absoluto, presumia-se. Uma colecção de canções de rara beleza, conclui-se agora. Uma beleza tão maior quanto a improbabilidade de tal suceder. Grande disco.
Pedro Figueiredo
(Mondo Bizarre # 25)
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