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JJ72
FRAGMENTOS DE CRISTAL
Da verde Irlanda chega uma nova banda carregada de emoção. Os JJ72 são, por ora, um dos mais bem explorados recentes sucessos do Reino Unido. "JJ72", o álbum de estreia é um fervilhar de guitarras acutilantes envolvidas na poderosa e vibrante voz de Mark Greaney.

Tudo começou no dia em que Fergal Matthews, um baterista que, antes da existência dos JJ72, mal tinha pegado numas baquetas, se decidiu a abordar Mark Greaney. Porquê? Porque Mark tocava guitarra e tinha um blusão de que Fergal gostava. E assim nasceu a lenda... Quanto a Hillary Woods, a baixista e terceiro vértice do triângulo, a sua entrada na banda ficou a dever-se a uma ousada participação numa peça escolar. Como se vê, as razões para a junção dos três elementos do grupo são muito pouco musicais.

Como no Reino Unido uma banda se faz em grande parte através de uma leal e dedicada legião de fãs, o grupo já alcançou o estatuto de "celebridades" junto do coração de inúmeros teenagers. Das sessões de autógrafos aos concertos passando pelas reportagens da imprensa britânica, os JJ72 foram colocados na mesma posição que os Manic Street Preachers ou os Suede em início de carreira: a grande, e última (até à próxima), esperança do universo pop/rock com origem nas ilhas. E, no entanto, a empatia entre o trio é notável. Tão extraordinária, que deu origem a "JJ72" o homónimo álbum de estreia. Carregado de sentimento, embebido numa sonoridade épica e avassaladora, é um desses primeiros discos que se arrisca a marcar uma época. Tão ambicioso como "Generation Terrorists", tão sofrido como "Unknown Pleasures", com uma delicadeza etérea roubada a Nick Drake, de quem, aliás, o grupo faz uma versão de "Black Eyed Dog", os JJ72 trazem de novo para a ribalta música capaz de electrificar a alma aos mais cépticos. Mas se o seu contrasta vivamente com o daqueles a quem são sistematicamente comparados. Não há lantejoulas, eye liner, camisas pintadas a spray, calças de couro ou gabardinas cinzentas. Apenas três seres no final da adolescência, tímidos, sensíveis e que gostam de literatura. Os livros e a namorada de Mark são as fontes de inspiração: "Algeria" é baseada em "O Estrangeiro" de Camus; "Undercover Angel" é a típica e bela canção de amor; "Snow" e "Long Way South" são como que uma mistura entre a poesia romântica e o mundo onírico e cinzento de Sylvia Plath. Se não se deixarem destruir pela avalancha de atenção de que estão a ser alvo, podem tornar-se numa referência sólida e apelativa do pop/rock do século XXI.

Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 5)