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J. MASCIS & THE FOG
O REGRESSO DO DINOSSAURO
Após a dissolução em 1997 dos Dinosaur Jr., o seu ex-líder e mentor J. Mascis, homem que maneja como ninguém uma guitarra, e que é por isso um dos maiores ícones da cena rock alternativa, regressa agora a solo com o apoio dos The Fog, com o novíssimo e muito recomendável "More Light".

Formados em 1984, os Dinosaur Jr., herdeiros duma sonoridade pós-punk cujas influências remontam a uns Stooges ou uns Traffic, acabaram por se tornar uma das mais importantes referências dos rebentos do movimento grunge, sem nunca se aproveitarem do "hype" gerado à volta deste para se catapultarem para as luzes da ribalta. Distinguindo-se por enérgicos riffs e pelos fantásticos, quase que hipnotizantes, solos de guitarra de Mascis, a sonoridade dos Dinosaur ficou também marcada pelo tom lacónico e arrastado da voz do seu líder, (o qual acentua a melancolia e frustração amorosas patentes nas suas excelentes letras), e a qual atingiu o auge no lindíssimo "Where you been?".

Agora a solo, Mascis não pretendeu reinventar-se, fazendo contudo aquilo que sempre soube - grandes canções. Contando com o apoio do My Bloody Valentine Kevin Shields e Andrew Wilkinson na produção e alguns instrumentos, e com ocasionais registos de voz de Bob Pollard dos Guided by Voices, J. aliou todo o "barulho" e estrondosa energia das suas guitarras com um apurado sentido melódico, o que dá uma forte consistência pop às canções, em parte conferida pelo magnífico uso que dá a instrumentos como as teclas. Assim temos momentos como um "Wastin", "Ammaring" ou "Does the Kiss Fit", quase que etéreos e cadentes, nos quais a presença das guitarras é discreta mas fundamental, e outros verdadeiramente enérgicos, estrondosos e cheios de distorção, como "Where'd you go", "All the Girls" (para não mencionar o estouro alucinante de "More Light"), e ainda o primeiro tema do álbum "Sameday", um verdadeiro murro no estômago pelo incrível ritmo e energia dos seus poderosos riffs, apimentados pelas intervenções vocais algo dramáticas de Pollard neste manifesto de desalento perante a vida. O ponto culminante será talvez "Ground Me to You", no qual a presença de elementos eléctricos e acústicos adocicados pela fragilidade dos teclados e pelo registos vocais confessionais e dolorosos , são de uma beleza inefável. A enorme coesão e fluência de "More Light", a verdadeira injecção de frescura e energia que este é, reforçam de facto o merecido estatuto de Mascis como figura fundamental do cenário indie rock, provando que este dinossauro ainda não passou à pré-história.

Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 6)