JOAN OF ARC
PONTO DE VIRAGEM
Não é uma volta de 180 graus, mas os Joan of Arc de 2003 deixaram para trás a excessiva experimentação e apresentam-se com dois discos, “So Much Staying Alive and Lovelessness” e “In Rape Fantasy And Terror Sex We Trust”, cada um deles a apontar um futuro diferente.
No rock, cada vez que alguém complica as coisas um bocadinho mais, leva logo pedradas e é chamado pretensioso. Os Joan of Arc (JOA) têm de conviver com este fenómeno: fazem música popular complicada, pelo que o seu dia-a-dia é mesmo levar pedradas. Daí que serem atirados para o saco do pós-rock até nem seja mau de todo. Pelo menos têm algumas boas companhias. Nestes dois discos, editados em separado mas provenientes do mesmo conjunto de sessões, com gravações ao vivo no estúdio, o quarteto de Chicago abraça a linha mais ortodoxa dos seus conterrâneos. Além de uma presumível evolução natural, este facto explica-se pela inclusão no rol de participantes de alguns dos cromos mais valiosos da caderneta pós-rockeira, incluindo Rob Mazurek e Califone.
Em “So Much Staying Alive and Lovelessness”, com os truques tecnológicos definitivamente abandonados, os JOA assumem a opção pela construção de canções. Contudo, são canções “estranhas”. As letras de Tim Kinsella parecem fazer algum sentido e são cantadas com uma aparente noção de ritmo, encontrada com a batida ora sincopada, ora jazzísitica de Mike Kinsela (irmão de Tim). Já as guitarras de Tom Mattei e Sam Zurich deambulam por caminhos mais pantanosos, num intricado jogo de surpresas e desfasamentos que são a própria definição do som actual dos JOA. As guitarras tomam, quase sempre, um papel semelhante ao da voz nas composições mais comuns: são-lhes permitidas variações, atropelos e, em suma, uma maleabilidade que habitualmente é apenas concedida ao vocalista. O resultado fica entre a experimentação à Tortoise (e quejandos), e o folk demente, na linha de algum trabalho de Daniel Johnston.
“In Rape Fantasy And Terror Sex We Trust”, um filho bastardo editado - pela Perishable - fora da casa que normalmente alberga os discos dos JOA - a agora conotada com o emo Jade Tree -, é melhor. Embora agradável e audível para ouvidos menos treinados, “So Much...” é aborrecido no seu virtuosismo. Se por um lado é harmonioso, por outro é pouco intenso. De certa forma, as canções parecem mais preocupadas em serem perfeitas do que em serem humanas. Neste segundo tomo não é assim. Nele Tim Kinsella grita e esperneia. Quase que o podemos imaginar em convulsões incontroláveis a cantar “Aeroplane shadow / George W. Shadow / Dick Cheney Shadow (...)/ Shadow government” (em “Happy 1984 and 2001”). As emoções andam à flor da pele; o dramatismo encenado de “So Much...” é aqui tortura efectiva, sofrimento real, euforia física. Este é território inexplorado para os JOA e, por isso, este disco será um marco na sua carreira. Daqui para frente, ou casam a matemática complexa da sua experimentação com a folk psicadélica ou se deixam corroer pelas perturbações do maestro Kinsella. Votamos pela segunda opção.
Diogo Homem Marques
(Mondo Bizarre # 16)
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