JOE STRUMMER
HEY JOE! (21-08-1952 / 22-12-2002)
Há um par de décadas atrás, os canais de TV eram poucos, tão poucos que se podia ver tudo – e, curiosamente, via-se e tinha-se mais para ver que hoje. Imaginem que no canal 1 da nossa querida RTP havia um programa que passava video-clips – a MTV ainda dava os seus primeiros passos… – e o mais atrás que as minhas memórias recuam leva-me até um cenário de Sheiks, com uns rapazes esguios a cantar uma música aparentemente sem sentido - “The sheik don't like it/rock the casbah/rock the casbah” - mas com uma malha daquelas que nos prendem a atenção. Claro que nessa altura não sabia o que eram malhas, nem o que era um Casbah, nem quem eram os tipos que cantavam a música. Sei, isso sim, que o tema e o vídeo ficaram no meu imaginário e que pouco se passou até ter nas minhas mãos “Combat Rock” dos britânicos The Clash e descobrir Mick Jones e Joe Strummer.
Nos anos que se seguiram, lentamente descobri os movimentos da década de 60 e 70 e apercebi-me, por fim, que aquele disco da minha colecção pertencia a um grupo punk que era apenas e só a espinha dorsal de todo o movimento.
Olhei para trás e percebi como este quarteto fora responsável pela união do reggae com o rock e como tinha tornado compatível a anarquia punk com o sistema da indústria musical.
Pensem na década de 70, em todas as estrelas com tanto talento como manias, no seu quase estatuto de deuses, e depois percebam como o movimento punk se poderia revelar inconveniente, oferecendo à indústria um produto tão popular quanto barato! Mas face à novidade emergente era preciso ter solidez, e essa residia nos The Clash, que surgiam alimentados pela genialidade de Strummer, frontman nato e, acima de tudo, um fabuloso escritor de letras e compositor de temas. Peguem no “London Calling” e leiam as letras irónicas de “Spanish Bombs”, de “London Calling” ou “The Guns Of Brixton”… e depois assobiem as músicas, apreciem o swing de “Jimmy Jazz” ou o feeling muito sixties de “Spanish Bombs”. O curioso é que o disco ainda hoje soa actual e bem mais interessante do que muito daquilo que diariamente é editado um pouco por todo o mundo. Espantados? Então como ficarão se souberem que é assim que soam os primeiros quatro trabalhos do grupo? E que, destes, um é duplo e outro triplo? E que “London Calling” – o terceiro disco, de 79 – é por muitos considerado uma peça fundamental do rock dos anos 80? Ou que “The Clash”, de 77, é um dos melhores discos de estreia da história do rock?
E quase tudo isto saiu da pele de um indivíduo filho de um diplomata inglês – Strummer nasceu a 21 de Agosto de 1952 em Ancara, na Turquia – que na sua adolescência, quando tocava nos 101ers, idolatrava Woody Guthrie – chegou a usar Woody como apelido – e Bob Dylan. Um homem que recebeu mal o sucesso de “Combat Rock” – o tal de “Should I Stay Or Should I Go” – e ficou ainda pior depois de ver Mick Jones abandonar o grupo para formar os Big Audio Dynamite.
Com “Cut the Crap”, Strummer terminava com a carreira dos Clash e partia para uma errática vida, entre o cinema e participações musicais nos Big Audio Dynamite e outros. Nos finais dos anos 90 reuniu à sua volta um grupo de miúdos e chamou-lhes The Mescaleros, com eles assinou contracto pela Epitaph e lançou dois discos.
Portugal viu-os em Vilar de Mouros em 99, algures no meio do cartaz de um sábado à noite, numa época em que as pessoas já perderam o respeito pelo rock e antes se preocupam em ouvir a banda do momento. Foi pena, porque o Natal de 2002 trouxe-nos uma má prenda. Já tinhamos perdido Joey Ramone, Johnny Thunders, G.G. Allin… e agora só nos resta Jello Biafra! O Punk está quase morto, e o rock sente a sua falta…
Emanuel Ferreira
(Mondo Bizarre # 14)
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