JOHNNY CASH
A REDENÇÃO AMERICANA
Johnny Cash é uma voz enorme da America mítica que por um triz quase caiu no completo esquecimento. Com a terceira parte da trilogia para a American Recordings, de Rick Rubin, essa voz eleva-se de novo reganhando a dignidade de outros tempos na humildade da interpretação de canções alheias.
Rick Rubin é uma espécie de último visionário da música americana. Depois de ter sido co-fundador da Def Jam e apadrinhado projectos tão díspares quanto os Slayer, Beastie Boys, Black Crowes ou Danzig. Depois de ter sido um dos prímeiros catalisadores do cruzamento rap/rock dos inícios dos anos 90 e ter projectado os Red Hot Chili Peppers para o panteão das grandes bandas americanas da década de noventa com o álbum “Bloodsugarsexmagik”, ao passar para a sua própria etiqueta, a American Recordings, deu albergue a uma linhagem de projectos que fazem questão em fugir à lógica mais previsível do mercado mainstream.
Entre as suas jogadas menos previsíveis estão a recuperação - embora com resultados diferentes - de dois “monstros” da música popular: Donovan e Johnny Cash. De facto, e no caso deste último, foi Rubin que arrancou um dos maiores nomes da música americana das garras de um possível esquecimento, dando-lhe a dignidade de um final de carreira condizente com a sua restante obra, através de três sólidas gravações para a sua editora. Cash, com quase 70 anos e doente crónico, corria o risco de se afundar para sempre nas caves do duvidoso circuito do “country” quando viu as suas canções - produzidas pelo próprio Rubin - receberem um novo tratamento dignificante no seu “American Recordings”. Em meia dúzia de anos foi produzida uma excelente trilogia que culminou no álbum de 2000, “American Recordings III - Solitary Man”, onde este homenageia alguns dos seus confessos admiradores, entre os quais Tom Petty, Nick Cave, Will Oldham ou os U2, num conjunto de excelentes canções, limpas, sóbrias e em último caso surpreendentes.
A alma negra de Cash, algures entre a permanente tentação e desejo de redenção, entre o moralismo cristão e a pulsão sanguinária, dá um novo sentido a estas versões, que as eleva ao estatuto das suas melhores interpretações. E é na tensão entre o silêncio, a voz e a guitarra que tudo se joga e esta alma melhor se exprime. Cash é uma enorme voz da cultura americana que merece ser conhecida e apreciada pelas gerações a quem o tradicionalismo da canção folk/country já não diz muito. É o que Rick Rubin mais uma vez consegue através deste expediente bem sucedido que é apanágio das suas produções. Quem se espantar com “Solitary Man” faça favor de investigar os dois álbuns anteriores e alguns dos clássicos de Cash, como por exemplo o “Live At San Quentin”, gravado em directo para os reclusos da infame prisão.
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 6)
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