JOHNNY MARR & THE HEALERS
ERA UMA VEZ UM RAPAZ
“I’m Boomslang, I’m Boomslang”, dizia a cobra no sonho do guitarrista dos Smiths que viria a servir de inspiração para o título do álbum de estreia de Johnny Marr & the Healers. Sob as nuvens cinzentas e o céu encoberto da cidade de Manchester e atestando o estado criativo do homem e do mito, nasce “Boomslang”.
Nascido na Inglaterra das fábulas, no Dia das Bruxas de 1963, registado como John Maher, o músico tocou em bandas desconhecidas como os Sister Ray e os Freaky Party antes de formar os Smiths com Morrissey, no ano de 1982. Nos anos que se seguiram, o colectivo estabeleceu-se como um dos casos mais bem sucedidos em solo britânico. Contudo, depois da gravação do material de “Strangeways, Here We Come”, apenas cinco anos decorridos sobre o início da actividade, Johnny Marr resolveu dissolver o grupo por considerar que a sua proposta musical se havia tornado obsoleta. Mais tarde, o seu nome viria a ser creditado em trabalhos como os dos Talking Heads e de Kirsty MacColl – isto antes de se juntar aos The The de Matt Johnson para a edição de “Mind Bomb” em 1989. As suas capacidades performativas figuraram também junto de Bernard Sumner (New Order) e Neil Tennant (Pet Shop Boys) nos Electronic. As suas prestações mais notáveis aconteceram em “Dusk”, dos The The, e em “Raise the Pressure” e “Twisted Tenderness”, estes com o epíteto Electronic. Marr passou também algum do seu tempo em digressão no Reino Unido com a sua nova banda – the Healers.
A adenda ‘The Healers’ foi retirada do livro “The Secret Doctrine” de Madame Blavatsky, uma vidente do século XIX. Inicialmente descrito por Johnny como uma colisão no deserto do Arizona entre T.Rex, the Stooges, Eno, Beck e the Wailers, o seu novo projecto significou uma oportunidade de reflexão crítica. Os Healers surgiram de um encontro no final de 1997 entre Johnny e Zak Starkey, filho de Ringo Starr e baterista. No intervalo de tempo entre essa data e a efectiva reunião da banda cinco anos depois, o músico actuou ao vivo com Neil Finn, produziu e tocou no álbum dos Haven e escreveu canções com Beth Orton e Liam Gallagher. Quando finalmente regressou aos Healers com Alonza Bevan (antigo baixista dos Kula Shaker) e Starkey, Johnny conseguiu um contrato com a iMusic, na sequência de conversações com o manager dos Smiths e um velho amigo daquela editora.
Em “Boomslang”, Johnny Marr tem a oportunidade de se revelar um letrista de referência, subestimado durante longos anos. As canções são fluidas e a lírica expansiva, a secção rítmica liquefaz-se nas melodias e nas texturas sonoras que cimentam o disco. Por vezes, o percurso torna-se sinuoso e mecanizado (como na faixa inaugural, perversamente intitulada ‘The Last Ride’), mas é então que aparecem ‘Caught Up’ e ‘Something to Shout About’ – esta última aparentemente decalcada de devaneios nas montanhas. ‘Inbetweens’ trata de se estar à margem dos estereótipos culturais a que as pessoas são obrigadas. Mas a agudeza na crítica emerge em ‘Long Gone’, que narra na primeira pessoa a experiência de ter sido raptado em Los Angeles e avança em tom provocatório com tópicos como a obsessão pela fama. A necessidade voraz de experimentar novas sensações levou Johnny a interessar-se pela electrónica e por bandas conceptuais como Boards of Canada ou Godspeed You! Black Emperor.
Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 14)
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