Artigos
JOHN PEEL
MUSIC LOVER
1939 - 2004
25 de Outubro de 2004. Na cidade inca de Cuzco, no Peru, um ataque cardíaco rouba a vida a John Peel. De todo o mundo chegam lágrimas dos seus órfãos: os ouvintes semanais, entre um auditório que extravasava as ilhas britânicas, as bandas que deram os primeiros passos nos seus programas, os coleccionistas de “Peel Sessions” de todo o mundo, ou, em abstracto, a música popular, de todas as cores e feitios. Aquela voz nem sempre perceptível, mas entusiasta, rebelde, britanicamente sarcástica e apaixonada não volta mais aos microfones da rádio. As novas bandas, para as quais Peter Hook, numa reacção à morte do radialista, prevê vidas difíceis, não vão poder ter no seu curriculum uma sessão gravada para o programa de Peel, nem tão pouco vão poder dizer, inchadas de orgulho, coisas como “o Peel ouviu-nos e gostou!”.

John Robert Parker Ravenscroft começou a fazer rádio nos EUA, em 1962. Cinco anos depois, regressou a Inglaterra, para realizar na estação pirata Radio London o programa “The Perfume Garden”. Foi aí que se viu obrigado a mudar de nome: Ravenscroft era demasiado longo para os directores da Rádio London e um funcionário sugeriu-lhe o nome Peel. Curiosamente, o novo apelido viria a tornar-se uma imagem de marca da BBC Radio One (em cujos quadros ingressou no mesmo ano do regresso a Inglaterra) devido às Peel Sessions, sessões de estúdio exclusivas com bandas e artistas das mais diversas proveniências, tanto geográficas como estéticas, para posterior emissão nos seus programas. O obituário da BBC lembra que “quase toda a gente que é alguém no mundo da música gravou uma sessão para Peel”.

Dos Pink Floyd aos Lightning Bolt, dos Pixies aos Franz Ferdinand, de Marc Bolan aos Napalm Death, dos Joy Division aos Autechre, meio mundo gravou para Peel. A origem das Peel Sessions remonta ao tempo do “needletime” (tempo de agulha) dos anos 60, quando o sindicato dos músicos britânicos fixava uma quota de música gravada que as rádios podiam passar, conforme relata Ken Garner, autor do livro “In Session Tonight”. As novas Radio 1 e Radio 2, da BBC, especialmente orientadas para a música, tinham entre elas, em 1967, apenas sete horas de “needletime”. Para ultrapassar os limites, a programação via-se obrigada a incluir nas suas grelhas a emissão de música tocada ao vivo, e o novo programa de John Peel, “Top Gear”, mais tarde “John Peel Show”, não fugia à regra. Ao longo destes quase quarenta anos, o ouvido atento de Peel descobriu e ajudou a disseminar milhares de novos projectos e de revoluções estéticas que foram acontecendo.

O punk, a new wave, o reggae, o hip hop e as electrónicas, para citar apenas alguns dos campos em que Peel se movimentava sem precisar de mapa, num saudável eclectismo que contrasta fortemente com a ideia de rádios formatadas trazidas nos anos 90, nunca poderiam ter sido os mesmos se não tivesse um amigo tão esforçado e tão apaixonado quanto Peel. E muitos ouvintes encontravam aí uma prova de que se é capaz de se ser simultaneamente aberto e crítico, e ainda melhor, surpreendente: quando o punk estava a rebentar em Inglaterra, e ele próprio era um dos instigadores dessa explosão, lembrou-se de gravar a cantora folk June Tabor para emitir num dos seus programas…

Era o único que até há poucas semanas, aos 65 anos de idade, continuava a apresentar novos sons com o mesmo entusiasmo que teria nos anos 60 e 70. “I may be old but the programme isn't”, dizia numa entrevista realizada há poucos anos. Não é de estranhar que no obituário de uma revista como a Economist apareça, logo na linha por baixo de “Yasser Arafat, Leader Of The Palestinians”, a seguinte inscrição: “John Peel, Music Lover”. Que bem que lhe cai o epíteto.

Curiosidades
Em 1967, Peel foi o primeiro homem da rádio a passar “Sergeant Pepper’s Lonely Heart Club Band”, dos Beatles.

Era fanático pelos Fall. Entre as declarações que foram lembradas no funeral, ouviu-se uma onde Peel dizia: “Sou sortudo. Tenho tudo o que queria em miúdo (…). Se morrer amanhã, não terei nada de que me queixar – a não ser o facto de haver um álbum dos Fall no ano seguinte.”

Clube favorito: Liverpool. Era habitual começar os DJ sets para os quais era convidado com uma gravação em vinil do relato do golo de Alan Kennedy ao Real Madrid, em 1981, quando o Liverpool ganhou a sua terceira Taça dos Campeões.

Tema favorito: “Teenage Kicks”, dos Undertones. Peel chegou a passá-lo duas vezes seguidas na rádio, algo de inédito até então. No seu funeral, ouviu-se “Teenage Kicks” e o hino do Liverpool, “You’ll Never Walk Alone”.

Concerto favorito: The Faces, em Sunderland, 1977.

John Peel tinha perto de trinta mil LPs em casa. Uma estação de rádio norte-americana já ofereceu um milhão de libras pelo espólio e existe também o interesse da British Library.

O palco de novos talentos do festival de Glastonbury, de onde todos os anos Peel fazia reportagens, vai passar a ter o seu nome.

John Peel tornou-se, em 1998, um OBE, ou seja, cavaleiro da Rainha de Inglaterra, e possuía vários doutoramentos honoris causa atribuídos por universidades britânicas.

Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre # 21)