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KID 606
O Apropriacionista Electrónico
Kid 606, o jovem insurrecto (de origem venezuelana) do panorama musical norte-americano, veio a Portugal mostrar ao vivo a sua visão contorcida da música de raiz electrónica. Quase ao mesmo tempo, editou o seu último disco, com o subtil título "The Action Packed Mentalist Brings You The Fucking Jams"! Matéria suficiente para uma análise mais detalhada deste turbilhão da música digital.

Kid 606 (Michael Trost Depedro), começou as suas diatribes sonoras em 1998, com a edição do seu primeiro álbum "Don't Sweat The Technics". Na altura ainda navegava pelos meandros obscuros do hardcore tecno (também conhecido por gabba), mas o seu dedo humorístico tinha sido já impresso como imagem de marca do seu trabalho. Mas foi sobretudo no ano 2000 que o seu nome rompeu definitivamente na cena electrónica experimental, com a edição dos seus discos mais reconhecidos: "Down With The Scene" e "P.S. I Love You". Nestes dois trabalhos, Kid 606 revelava toda a sua visceralidade, mestria e irreverência na forma como elaborava as suas composições, estruturadas com base num discurso fragmentado, noisy, provocador (com técnicas rebuscadas de sampling). Donde, sem surpresa, a imprensa o comparou a gente da talha de Alec Empire (a solo e com os Atari Teenage Riot), Lesser, Matmos, Add N to (X), DJ Spooky ou The Third Eye Foundation.

Inspirado pelo punk, noise-rock, hardcore tecno, experimentalismo e por uma grande dose de heavy metal, Kid 606 soube gerir o "hype" criado ao seu redor (até pelo facto de ter começado nas lides musicais com apenas 18 anos); os seus espectáculos ao vivo - sets de DJ e de manipulador de laptops - são sempre aguardados com muita expectativa derivado de nunca se saber muito bem o que esperar das suas actuações. Previsibilidade não é um conceito muito comum no vocabulário musical de Kid 606. A sua proposta musical, ainda que esteja longe de ser original, provém de uma sensibilidade estética heterodoxa, no justo sentido em que Kid assimilou diversas linguagens musicais (do rock ao pop mainstream), para depois as decompor, triturar, remisturar e reciclar a seu bel-prazer no seu estúdio electrónico. A isto se pode chamar de "apropriacionismo estético", na medida em que, com base na matéria prima alheia, o músico e DJ apropria-se dela para construir a sua própria proposta musical. A sua actuação ao vivo em Julho deste ano, provou o seu eclectismo sonoro e a sua profusa irreverência estilística, num set que misturou drum'n'bass fustigante com riffs de guitarra rock, ruídos electrónicos com reminiscências pop, descargas brutais de ritmos digitais com ambiências sonoras subtis e relaxantes (em faixas que chegam a atingir os 14 minutos de duração). De resto, o seu novo trabalho, "The Action Packed Mentallist Brings You The Fucking Jams" corrobora esta mesma faceta: Kid 606 recorre às referências pop do passado recente (Radiohead, The Bangles ou Kylie Minogue) para as desestruturar e voltar a enquadrar em furiosos breakbeats, misturados com ruídos e soundbites meticulosamente concebidos para dar um efeito final altamente sugestivo e audaz. No fundo é um trabalho que revela simultaneamente respeito e despeito pelas figuras pop que aborda e ridiculiza, com base num humor que tem tanto de cáustico como de cínico. Como comprovativo desta premissa, atente-se na nota da contracapa do CD: "All songs not written by Kid 606". Não será totalmente verdade, mas anda lá muito perto.

Victor Afonso
(Mondo Bizarre # 12)