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THE KINKS / RADIO BIRDMAN
MEMÓRIAS REVISITADAS
Duas novas edições passam a integrar o extenso catálogo da Sub Pop: "Give the People What We Want", álbum de tributo aos Kinks, e "The Essential Radio Birdman: 1974-1978".

A primeira resulta de um esforço conjunto das editoras Hence, Burn Burn Burn, Right Now Records e Sub Pop Records. Algumas das composições mais obscuras dos Kinks são, agora, revisitadas pelos filhos (mais ou menos legítimos) de uma Seattle renovada.

Nos alvores dos anos 60, os Kinks escalam a tabela de vendas do Reino Unido com 'You Really Got Me', feito conseguido, em parte, a expensas da memorável aparição no programa de TV "Ready Steady Go". A grande diversidade de artistas em simbiose neste tributo encontra paralelo na disparidade cultural que ilustra a trajectória dos Kinks. Dos primeiro trabalhos até aos complexos álbuns conceptuais, subsidiados por temas reflexivos e profundos, a excentricidade e irreverência artísticas de um iluminado Ray Davies conduziram os Kinks às bocas do mundo. Isto, sem nunca se desviarem das suas raízes nem descurarem a estética punk que sempre os acompanhou.

À medida que o êmbolo de "Give the People What We Want" desce, é-nos administrado um caleidoscópio de interpretações cimentadas por uma produção mais limpa do que era suposto. O tributo abre com o instrumental 'Revenge' - revisto pelos C Average, naturais de Olympia - e encerra sob o comando de Nikol Kollars, uma das representantes do trip-hop que se faz por Seattle, numa versão de 'I Go to Sleep'. Pelo meio, encontramos a contribuição (quase) insípida de Mark Lanegan, o muito requisitado mentor dos Screaming Trees, em 'Nothin' in the World Can Stop Me Worryin' 'bout That Girl', a candura sempre presente de Heather Duby em 'The Way Love Used to Be' e a muito pouco sóbria incidência em 'Alcohol' pelos Murder City Devils. Eis-nos chegados ao ponto fulcral: na feitura de um tributo aos Kinks, a sobriedade artística é algo que facilmente se dispensa, assim como a produção empolada que atravessa este disco de uma ponta à outra. Excepção feita aos Murder City Devils e aos Mudhoney, que parecem ter esventrado os temas que versionam até lhes encontrarem o âmago e, em seguida, coligido as parte essenciais e as sobras para que nada fosse deixado à margem da composição. Plenos de vitalidade e esteticamente mais maduros, os Devils assinaram a melhor interpretação do álbum, numa altura em que se encontram em alta com a edição do EP "Thelema" em 2001. Porta-estandartes do grunge desde o primeiro suspiro - movimento ao qual a Sub Pop soube sobreviver e do qual se tem demarcado pelo cruzamento de diferentes sonoridades e projectos -, os Mudhoney erguem a tocha olímpica pelos Kinks em 'Who Will Be the Next in Line'. Alinhados estão também os Young Fresh Fellows com 'Gotta Get the First Plane Home' e os Model Rockets, colectivo pop-rock que recupera 'Ring the Bells', temas que, nas suas versões originais, germinavam no álbum de 1966 "The Kink Kontroversy". Quando começam a eclodir no panorama musical com o mais recente "Sea To Shining Sea", os Love As Laughter resolvem esgravatar o legado dos Kinks, designadamente o álbum "Something Else", e gravam 'Tin Soldier Man', um tema estranho, folclórico e obtuso. The Briefs ('Come Dancing'), uma das mais recentes formações pop-punk a cavar trincheiras em Seattle, the Fastbacks ('Waterloo Sunset'), the Pinkos ('Brainwashed'), praticantes de garage-punk, the Minus 5 ('Wicked Annabella') e the Makers ('Strangers'), guardiões do conceito no último "Rock Star God", tocam Kinks nos seus estilos próprios e naturalmente distintos. Também the Fallouts ('This Man He Weeps Tonight'), o singer-songwriter Baby Gramps, num registo magoado e dilacerado de 'Sunny Afternoon', e the Congratulators ('Session Man') conseguem capturar alguma da tensão latente na música dos Kinks. Jon Auer, parte integrante dos Posies, fotografa o seu lado mais lunar e apaixonado em 'Fancy', enquanto Larry Barrett desenterra aquela que se considera a primeira investida da banda na música country ('Act Nice and Gentle').

"The Essential Radio Birdman (1974-1978)" encerra um período de 20 anos de abstinência no que diz respeito à edição, nos Estados Unidos, de material desta formação australiana. A colectânea reúne o primeiro álbum "Radio Appears" na íntegra, alguns temas do sucessor "Living Eyes" e os Eps "More Fun" - uma gravação ao vivo datada de 1977 - e de estreia "Burn My Eye". O som e a atitude em que se inscrevem são devedores tanto dos Stooges quanto dos MC5, duas bandas que marcaram irremediavelmente a adolescência do guitarrista e letrista Deniz Tek, quando este vivia no sudeste de Michigan. 'Love Kills' e 'Man With Golden Helmet', constantes desta colectânea, ilustram de forma inequívoca a herança que transportavam consigo. Os Radio Birdman começaram por tocar na Austrália e por dar alguns concertos no Reino Unido com os The Flamin' Groovies em 1978, antes mesmo de partirem à descoberta do continente americano. Depois da banda se separar, Rob Younger (voz), Deniz Tek (guitarra) e Warwick Gilbert (baixo) formaram os New Race com Ron Asheton dos Stooges e Dennis Thompson dos MC5. Tek tem ainda outros projectos como Deniz Tek Group, Deep Reduction e Dodge Main. Rob Younger formaria também os New Christ, que ainda hoje se mantêm activos. Os Radio Birdman juntaram-se novamente em 1996 e 1997 para umas quantas digressões pela Austrália, mas não há, de momento, planos para voltarem a fazê-lo. "The Essential..." representa, portanto, tudo o que há para saber acerca dos Radio Birdman.

Helder Gomes