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KINSKI
NEBULOSAS PARA OS OUVIDOS
Desde meados dos anos 90 que o rock continua maravilhado com os grandes espaços. É isso que nos diz o mais recente trabalho do quarteto de space-rock Kinski que, com “Airs Above Your Station”, revela uma experiência musical distante da garagem e algures entre o asfalto e as nuvens. Um pouco como Ícaro mas, cautelosamente, longe do Sol. No que diz respeito aos géneros rock e pop assistimos actualmente a dois fenómenos que, apesar de bem distintos, vão coexistindo despreocupadamente numa espécie de linha paralela. De um lado temos um constante revisitar de antigas memórias musicais sem qualquer preocupação de reconhecimento ou superação. Do outro, uma cada vez mais consistente tentativa de organizar intuitivamente uma espécie de ruptura ou apenas de progresso estético. Ou seja é-nos oferecida música feita hoje mas cristalizada no passado, ao mesmo tempo que somos confrontados com uma estranheza bruta ainda pouco preparada para fazer frente ao vírus da produção de significados. Ora os Kinski encontram-se exactamente sobre o traço que ameaça tocar as duas linhas. A razão é simples: não sabem agitar paradigmas mas também não sabem enquistar-se no passado. Fundados em finais dos anos 90, em Seattle, têm por hábito – através do guitarrista Chris Martin – confessar o seu gosto pelo kraut rock, mas aquilo que produzem deve mais às trilhas sonoras deixadas pelos Sonic Youth, ao stoner rock, ao shoegazing e às incursões “espaciais” de Sonic Boom. De teutónico, para já, só um ou outro impulso motorik ou pinceladas da respectiva electrónica. Não se pense que este puzzle deixa os Kinski desconfortáveis. Possuir um tema intitulado “Daydream Intonation” é sinal evidente de uma divertida estratégia de confissão, antecipando os sublinhados dos revisores. Como se não bastasse conseguem fugir com razoável facilidade à tentação copista. Ora realizando curvas sinuosas através de texturas que se sobrepõem a drones ou cruzando loops com acordes, fogem para a frente. Procurem ouvir temas como a versão dos The Clean, “Point That Thing Somewhere Else” (do EP “Semaphore”) ou “Please Remain Seated” (single homónimo) que podia muito bem acompanhar algumas das cenas de “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” se este fosse um filme mais diurno. Com “Airs Above Your Station” há quem tenha falado de uma qualquer consolidação ou – no extremo oposto – de uma desilusão completa, acusando os Kinski de plagiadores medíocres. É verdade que a terceira faixa soa a Live Skull com melhor produção e que “Schedule for Using Pillows & Beanbags” se perde num regurgitar inconsequente. A conclusão final é, contudo, satisfatória. “Steve´s Basement”, por exemplo, revela-nos como no rock a quietude se pode desdobrar em fúria, enquanto “I Think I Blew It” é uma incursão ambiental surpreendente que conjuga a leveza de Brian Eno com a tensão de uns Youngsbower. Já “Waves of Second Guessing” encena uma melopeia entretanto rasgada por riffs, antes da faixa final nos levar de novo a um lugar habitado por loops e overdubs. Enfim, os Kinski são aquilo a poderíamos chamar uma banda de space-rock “aggro”. Sem as aspirações de uns Spiritualized, mas com a aspereza de uns Blue Cheer. Só lhe basta uma terceira qualidade para deixarem de ser um bom grupo e passarem a ser uma excelente banda: um pouco mais de nervo.

José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 16)