LADYTRON
MÁQUINAS HUMANAS
Os Kraftwerk são, em último caso, os felizes culpados disto tudo. “The Man Machine” ofereceu, de bandeja, a pop à electrónica. Um quarto de século depois, os Ladytron pegam na herança e asseguram a continuidade de um apreciável negócio de família.
Associados frequentemente à estética electroclash, os britânicos Ladytron antecedem o “boom” do hedonismo glam da electrónica em quase um ano. Quando os Fischerspooner lançavam o single “Emerge” (provavelmente o porta-estandarte do movimento), o grupo constituído por Daniel Hunt, Reuben Wu, Myra Aroyo e Helen Marnie já tinha em mãos (e nas mãos dos demais interessados) o seu álbum de estreia, “604” - lançado primeiro nos Estados Unidos e, largos meses depois, no Velho Continente.
A associação dos Ladytron ao renascimento electro dos últimos dois anos é inevitável. Mas importa recordar que a filiação deste quarteto de Liverpool nem sempre passa pelos mesmos nomes que inspiraram Fischerspooner ou Tiga. Perante o excesso electro-pop (com postura glam) que nos costumámos a identificar nos nomes mais frequentes das pistas de dança, os Ladytron reivindicam um aparato visual minimal, frio, feito de traços simples e uma quase demissão do artifício. Deslocam o interesse máximo do acessório para o essencial, que é uma música que deve mais a Gary Numan, OMD e os primeiros Human League do que aos Heaven 17 ou Bronski Beat.
Se, à primeira vista, o tecido sintetizado dos Ladytron pode apelar a baixas temperaturas, cedo nos apercebemos que a música que nos oferecem é feita de uma densidade pouco habitual no meio. Os teclados são, não raras vezes, enviesados e ásperos, pesando muito mais do que um leviano dedilhar pop; as vozes femininas funcionam quase como um instrumento, despidas do virtuosismo de outras paragens; os ritmos não são construídos a pensar num qualquer funcionalismo primário. A melodia pop não surge como cereja sobre o bolo mas encontra-se disseminada em toda a construção, revelando um cuidado inimigo das pré-programações já que o objectivo não é, declaradamente, a pista de dança.
O sucessor de “604” surgiu há poucos meses e não rompe com as intenções declaradas no primeiro momento. “Light & Magic” é a continuação adequada de “604”, despedindo-se (temporariamente, acredita-se) do experimentalismo mais sónico de temas como “Zmeyka” mas abraçando a manufactura pop com óptimos resultados, com os viciantes – mas só numa análise mais profunda – “Fire” e “Blue Jeans”, temas em que a electrónica é princípio e fim da obra apresentada mas que soariam igualmente insidiosos em guitarras e baixo já que nada há neles que os restrinja aos meios utilizados ou à forma patenteada. “Playgirl” tem descendência garantida em “Seventeen”, pastilha elástica pop com sabor de veludo nas vozes que cantam ”hey only want you when you’re seventeen / when you’re twenty-one you’re no fun”. E os Ladytron têm futuro certo quando a febre passar e restarem apenas plumas sujas no chão.
Luis Guerra
(Mondo Bizarre # 14)
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