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LAMB
ESTADO DE GRAÇA
São um daqueles "casos especiais" que acontecem por cá. "What Sound", o novo álbum dos Lamb, andou pelos lugares cimeiros dos tops, o que deve ter surpreendido até os seus autores. É o culminar de um namoro de alguns anos entre uma excelente banda pop e um público que sabe criar relações a longo prazo.

E à terceira os Lamb tornam-se verdadeiras vedetas pop. Pelo menos por estas terras lusitanas, já que o culto que lhes prestam os portugueses não parece ter paralelo em mais lugar algum do mundo. Este duo manchesteriano foi, pois, criando uma ligação espontânea e muito saudável com o nosso público que os transformou entretanto num daqueles cultos bizarros que acontecem por aqui regularmente. Com o novo "What Sound" tudo parece correr às mil maravilhas para que essa ligação se alargue a muitas mais camadas da população, já que este é um álbum que surge não só num excelente momento da carreira do grupo, mas também porque é um álbum mais fácil de digerir e portanto potencialmente mais pop. Parece que a fobia do duo a ritmos simplistas se esbateu e agora temos canções menos complicadas, envolvidas em menos caos, o que se por um lado lhes retira alguma daquela tensão que era uma das grandes características da sua música, não é o suficiente para a tornar propriamente mais "trolaró". Na realidade o que acontece é que por causa desta progressão, o terceiro álbum dos Lamb soa mais positivo e iluminado e as palavras cantadas por Louise Rhodes respiram com mais facilidade num clima de quase beatitude. Os Lamb estão, pois, em estado de graça, e daí não admire que se convoquem os anjos ("Gabriel") e os céus ("Heaven") e todos os entes queridos ("Sweetheart").

Entre estes podem-se contar Michael Franti, dos Spearhead, Meshell N'degéOcello ou Arto Lindsay, que mais que grandes contributos artísticos para este álbum trazem sobretudo o reconhecimento para um par de criadores único na pop actual. E eles merecem-no bem. Andy Barlow e Louise Rhodes vêm, desde o advento do trip-hop e da renovação electrónica da canção pop operada no estertor do século passado, a escavar um nicho muito próprio no panorama da música anglo-saxónica. Sem quaisquer "hits", mas com álbuns de uma consistência incomum; à parte de qualquer movimento ou cena, mas explorando as possibilidades das novas tecnologias e mantendo-se na linha da frente da modernidade pop; produzindo excelente música de estúdio mas ao mesmo tempo criando uma reputação firme de banda de palco; apelando aos sentidos e à dança, mas ao mesmo tempo assinando canções de uma notável emocionalidade e inteligência, os Lamb serão o protótipo de uma banda pop perfeita. E se a tensão criativa entre os dois pólos do duo quase levou ao desmoronamento da sua relação antes deste álbum, esperemos agora que com o previsível pulo de carreira que este álbum lhes trará, que o peso não se torne insuportável arruinando um dos edifícios mais elegantes e luminosos da pop actual. Que os anjos estejam com eles.

Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 9)