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LAMBCHOP
AS MULHERES SÃO ASSIM...
O início de "Is a Woman" quase que parece a entrada da banda sonora do filme de Francis Ford Coppola "One From the Heart". E tal como naquele disco memorável de Tom Waits e Crystal Gayle, somos desde logo arrebatados. Pela voz. Pelo piano e por todos os outros instrumentos. Pela alegre melancolia. Pela elegância. Pela poesia. Pela magia. Por tudo e mais alguma coisa...

Os Lambchop são uma banda que normalmente conta com 12 músicos, todos eles com profissões próprias - desde jornalistas a carpinteiros, passando por engenheiros de som - mas que conseguem reunir-se regularmente e produzir música de um encanto muito especial, já patente em seis álbuns e um EP, todos eles aclamados tanto em Nashville, a terra que os viu nascer, como por esse mundo fora. O sucesso só chegou com o registo anterior - "Nixon" - apesar de já lá estar tudo desde o maravilhoso "How I Quit Smoking". O mentor deste colectivo é Kurt Wagner, que até 1999 sustentou a sua veia artística como afagador de soalhos. Desde que abandonou aquela profissão de 14 anos, tem-se dedicado exclusivamente à música. O primeiro resultado desta mudança está aí para demonstrar que valeu a pena assumir o risco. "Is a Woman" é de facto um passo em frente para a mistura de country alternativo com soul dos Lambchop: novas orquestrações, mais suaves e envolventes que nunca, onde o piano assume a omnipresença, passando a lapsteel guitar, que tem sido imagem de marca da banda, para segundo plano. E é também um passo em frente para Kurt Wagner como "songwriter", que, mais enigmaticamente que nunca, fala em "Is a Woman" de amor e respeito, de morte e suicídio, da procura do eu e daqueles que nos rodeiam, da relação homem-mulher, da riqueza da vida.

Quando já estamos completamente embevecidos, sem nos apercebermos que já lá vão sete canções, surge um sobressalto com "D. Scott Parsley", um dos momentos mais altos do disco - se é que é possível distinguir as partes do todo, já que a uniformidade torna difícil a descoberta de algum pormenor que esteja fora do seu lugar. Curiosamente, este é o único tema em que o piano não é o centro das atenções. Começa com guitarra, passa para um órgão Hammond, para de seguida entrar o vibrafone, sempre a sustentar uma mesma estrutura rítmica. Volta então de novo a guitarra, desta feita acompanhada pelo piano. Ainda há tempo para a bateria fazer uma das suas raras aparições. Sempre com uma voz quente a comandar as hostes. Esta música prova não só que estamos perante uma obra excepcional, como demonstra que só uma grande banda, em número e em qualidade, consegue fazer ouvir todos os instrumentos, sem excessos nem sobreposições. Como diz o próprio Wagner, "Is a Woman" começa e acaba com o mesmo estado de espírito, mas tem algo mais pelo meio. É um disco restringido a uma ideia à partida, mas que, sem ser repetitivo ou monótono, e tal como uma mulher, apresenta inúmeras subtilezas. Ingredientes que fazem deste um disco de rara beleza e, sem dúvida, um dos álbuns mais românticos deste ano que agora desponta. Ficamos agora à espera do concerto que vai com certeza arrasar corações em Lisboa, dia 4 de Abril.

Vasco Durão