LIGHTNING BOLT
RUÍDO MÁGICO
Há quase 20 anos que bandas japonesas como os Boredoms ou os Ruins destroem todas as convenções instituídas do rock: não lhes interessa a exequibilidade fácil de fórmulas, mas sim a procura pela pura visceralidade das formas musicais. É esta visão da música que os Lightning Bolt vieram enriquecer com a edição de “Hypermagic Moutain”.
Da pacata cidade de Providence, em Rhode Island, nasceram há dez anos os Lightning Bolt, talvez a banda mais singular e criativa de todo o movimento noise actual. Singular pela original formação: Brian Chippendale na bateria trituradora e tribal (e, ocasionalmente, nas vocalizações) e Brian Gibson no baixo abrasivo e imprevisível (que mais parece debitar constantes riffs de guitarra eléctrica!); criativa, também, pela enorme capacidade que os dois músicos revelam em modelar a sua linguagem musical num processo de catarse e de energia incontida.
Com estas premissas invulgares, depressa foi crescendo o reconhecimento dos Lightning Bolt no circuito underground norte-americano, muito por culpa das suas actuações impressionantes no meio da assistência (muitas vezes mascarados), pela singularidade da formação e pelo domínio rítmico avassalador de Chippendale (e da sua velocidade de execução efusiva), aliado às sonoridades rispidamente improváveis do baixo de Gibson.
A agressividade estonteante da sua música, capaz de entorpecer os ouvintes mais audazes, é revestida de uma abordagem assaz crítica em relação à sociedade americana contemporânea, sem desprezo para o lado puramente hedonista que a música dos Bolt representa. Há um visceralidade incontida na música dos Lightning Bolt que brota de um conceito de independência de normas estabelecidas e de exploração de novos caminhos estéticos.
A custa destas invulgares características, erigiram à sua volta um verdadeiro culto e um percurso ímpar. Sempre na pequena editora Load, a banda de Providence editou até à data quatro álbuns, o primeiro dos quais em 1999 (“Lightning Bolt”), a que se seguiu, dois anos depois, o reconhecido “Ride The Skies”. Na verve desta tendência editorial, os Lightning Bolt lançaram ainda em 2002 o DVD “Lightning Bolt – The Power Of Salad”, eloquente documento audiovisual de concertos ao vivo da digressão americana referente ao Verão de 2001.
No entanto, o turbilhão sonoro imparável dos dois Brian tomou novas e importantes progressões com o espantoso álbum “Wonderful Rainbow”, editado em 2003, no qual o duo consolidou um invejável estatuto artístico, lançando novas e estimulantes directrizes sobre o rumo do noise rock. Já no Outono de 2005, nova manifestação de poder é demonstrada com “Hypermagic Mountain”.
Com as expectativas sempre altas, fruto dos seus notáveis álbuns anteriores, os Lightning Bolt não só não desiludem, como ainda conseguem apresentar ideias excitantes neste novo registo. Temas como “Captain Caveman” e “Magic Mountain” servem apenas como exemplos acabados do poder hipnótico que esta banda de Providence consegue exercer sobre o ouvinte. Um poder arrasador, à flor da pele, surpreendente e desconcertante. Como a vida, de resto.
Victor Afonso
(Mondo Bizarre # 24)
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