O projecto que junta Jim O’Rourke, Jeff Tweedy e Glenn Kotche dá o seu segundo sinal de vida. A conclusão é simples: os Loose Fur são cada vez mais uma banda por direito próprio e cada vez menos um projecto esporádico ou uma jam feliz; e “Born Again In The USA” é um disco em que se sente a simbiose perfeita dos três músicos, com arranjos e produção de superior qualidade.
O primeiro disco dos Loose Fur, datado de 2003, para os apreciadores dos músicos envolvidos, foi como que um sonho realizado. Jim O’Rourke e o núcleo duro dos Wilco juntos, e ainda por cima logo após a saída de dois dos álbuns mais inspirados deste início de milénio: “Insignificance” de O’Rourke e “Yankee Foxtrot Hotel” dos Wilco. Como a esperança de um sonho realizado alimenta sempre muitas expectativas, o primeiro Loose Fur tinha de facto os ingredientes ideais para nos fazer levantar voo, mas a alma não revelou a plenitude desejada e um certo travo intelectual acabou por vir ao de cima.
Já o segundo Loose Fur é realmente um renascimento para melhor da banda, e um renascimento da própria música americana. Até o tom religioso que perpassa todo o disco é premonitório da melhoria anunciada.
O’Rourke, Tweedy e Kotche pegaram nas suas influências e nos seus instrumentos e, de espírito aberto, construíram 10 canções (sim, canções e não exercícios de estilo) que compõem um todo coeso e maravilhoso. O que significa que “Born Again in the USA” tem o melhor que ambos os lados da banda têm para oferecer: rock, pop e country, salpicados por uma alegria que contagia cada vez mais a cada audição. Num adjectivo, este é um disco muito cool, com um título cool, imaginado e tocado por três tipos cool.
Ou seja, e muito simplesmente, um disco divertido de ouvir e que deve ter sido divertido de gravar. Jeff Tweedy toma as rédeas da voz nos dois primeiros temas. “Hey Chicken” é rock na sua verdadeira essência, com um certo sabor a Rolling Stones, que tem honras de teledisco, disponível no website da editora Drag City. O que é que os Power Rangers têm a ver com os Loose Fur? Vejam e descubram.
“The Ruling Class” tem uma malha de guitarra e um assobio (ambos pirosos) que não consigo tirar da cabeça e que vêm comigo para o duche todos os dias. “Answers To Your questions” é uma daquelas típicas baladas (por mais horrível que o termo seja) de Jim O’Rourke, que cresce exponencialmente, sem nunca explodir. Uma implosão de harmonia que se for ouvida com headphones, permite saborear a intimidade dos dedos a passar nos trastos da guitarra. Lembram-se de “Bad Timing”? “Apostolic” regressa à toada rock do primeiro tema do disco, com tempos e contratempos desenhados na perfeição. Pura redenção rock na voz de Tweedy. A passagem para “Stupid as the Sun” é quase imperceptível. Só quando se ouve O’Rourke percebemos que mudámos de canção, apesar de continuarmos na esfera revivalista do rock clássico: uma jam com princípio, meio e fim.
O poder continua em “Pretty Sparks”, um título também simbólico do todo: beleza com faíscas que picam e fazem vibrar. “An Ecumenical Matter” volta a desacelerar e a colocar o acento na religião, no único tema instrumental do disco, onde um piano emerge, na companhia de baixo, guitarra e bateria, naquele que seria um hino mágico em qualquer igreja de qualquer religião, porque esta música é universal. Em "Thou Shall Wilt", Jim O´Rourke disserta sobre os 10 Mandamentos. Em relação ao 4ª, que reza “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar”, O’Rourke comenta: "It's such a pain, this Sabbath thing is so arcane/ I don't want to desecrate, my only day to sleep in late".
A música termina em perfeito narcisismo, ou então em completo pecado: “you shall have no other God but me”. “Wreckroom” é o tema que, pelo experimentalismo, mais se aproxima do primeiro Loose Fur, se bem que também tenha algo da toada irregular que os Wilco imprimiram no seu ultimo disco de estúdio “A Ghost Is Born”, com direito a solo de guitarra, provavelmente o único do disco, e a um longo lamento minimal. "Wanted", uma canção ao melhor estilo pop dos Wilco, não podia ser uma forma mais alegre de acabar um disco que no seu todo irradia alegria.
Um final feliz para uma conclusão feliz: com “Born Again in the USA” os Loose Fur deixam de ser apenas um projecto paralelo, para se afirmarem como uma banda de qualidade musical superior, onde nada soa a forçado, como por vezes acontecia no primeiro álbum. Tal como o título indica, os Loose Fur aproveitaram o melhor das suas partes integrantes e nasceram de novo. Se o fizeram para criar um dos discos do ano, ou apenas mais um disco inolvidável que vai parar ao caixote do esquecimento, só uma alma perdida pode encontrar a resposta. Em todo o caso,
Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 26)