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MAGNETIC FIELDS
TUDO SOBRE AMOR
Até há muito pouco tempo, Stephin Merrit não dizia nada aos portugueses. De repente, com "69 Love Songs" dos Magnetic Fields, passou de ilustre desconhecido a génio; a "melhor escritor de canções" dos últimos tempos. Será?

Os Magnetic Fields já tem uma longa existência, mas só agora, com o triplo álbum "69 Love Songs" saltaram para a ribalta. E o que torna a obra, cujo nome é logo uma amostra das possíveis variantes sobre um mesmo assunto - o 69 apela a um imaginário fortemente carnal junto com as palavras amor e canções transforma-se num tratado poético -, tão arrojada e o seu autor tão aclamado? Primeiro que tudo, talvez a arrogância de atirar cá para fora um trabalho conceptual, na melhor tradição da canção popular, sobre o amor. Segundo, e como muito bem se sabe, quando todas os iluminados do jornalismo musical começam a dizer que determinado artista é o que está a dar, não há quem os pare.

Será, então, todo o exagero à volta de "69 Love Songs" justificado? Como atrevimento não está, de facto, nada mal. Quem se atreve a ouvir o triplo-CD até ao fim - é no último dos discos que se encontram algumas das melhores peças de "69 Love Songs", como "Underwear", "I Can't Touch You Anymore" ou "Zebra"-, descobre um manancial de canções populares, na linha dos grandes compositores do género como Irwin Berlin ou Cole Porter. Mas Stephin Merrit não se fica pelo passado e a gama de influências vai do bubblegum-pop electrónico, a Nick Cave, Divine Comedy, americana, world music, chanson française... Tudo somado, obtém-se uma enorme diversidade de matrizes sonoras construídas como um conjunto de peças musicais que não fazem sentido em separado. Ouvir "69 Love Songs" até ao fim não é tarefa fácil, mas é o único modo de se apreciar a obra na sua totalidade.

A par da música, construída com um enorme manancial de instrumentos que vão dos teclados analógicos, aos ukeleles, às congas, às citaras ou, pasme-se, aos sinos que as vacas usam ao pescoço, imperam as cinco vozes escolhidas por Stephin Merrit para darem vida às suas canções, o que permite que o cansaço não se instale. E, claro, há as palavras. Parte absolutamente essencial de "69 Love Songs", ou não fosse Merrit um escritor exímio, capaz de, no seu inglês ultra-perfeito, fornecer algumas das mais vividas imagens sobre o amor que nos últimos tempos foram apresentadas sob a forma de canções pop. Como dizem os ingleses: "baby, it's pure sugar".

Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 5)