MARK LANEGAN
À VOLTA DO MUNDO
Com o seu quinto álbum a solo, "Field Songs", Mark Lanegan, o ex-Screaming Trees, delicia-nos uma vez mais com a sua bela voz e com a mestria do seu talento, neste cenário tanto doce como sombrio, mas acima de tudo sentido. Um disco perfeito para o Outono que se avizinha.
Muitas vezes associados ao fenómeno grunge, o certo é que os Screaming Trees nem sequer oriundos de Seattle eram, e se andavam nestas lides desde os anos 80 e possuíam um talento e uma energia invejáveis, nunca tiveram realmente o merecido reconhecimento junto do grande público, como alguns dos seus companheiros de noitadas. Mas se os Trees se destacavam de grande parte das bandas pertencentes a esse mesmo cenário, muito se devia também à fantástica e muito peculiar voz do seu "frontman", Mark Lanegan.
Este, a partir de uma dada altura enveredou, paralelamente aos Screaming Trees, por uma carreira a solo, onde dá primazia a uma sonoridade mais acústica e intimista, explorando os sons de uma América profunda e, sobretudo, dando azo às suas enormes capacidades vocais. Possuindo uma extrema força e profundidade e lembrando por vezes a feroz rouquidão de um Tom Waits, a grave e presente voz de Lanegan consegue também ser quente, doce e sensual. E são todos esses atributos que estão presentes nos seus cinco álbuns a solo, não sendo este mais recente "Field Songs" excepção à regra. Pelo contrário, depois do álbum de versões "I'll Take Care of You", do fim dos Screaming Trees, e entre colaborações com os Queens OF The Stone Age, Lanegan tira da cartola este "Field Songs" que é talvez, "apenas" o melhor álbum da sua carreira.
Por aqui passa um rol de notáveis convidados, que certamente contribuíram para esta rara consistência e beleza sonora, em que cada instrumento ocupa naturalmente o seu lugar (sobretudos as guitarras eléctricas e acústicas, os teclados e o piano) o que se realça através de uma apurada produção.
Disco que se encontra imerso na assombrada paisagem de uma América rústica, silenciosa como os seus fantasmas, existindo aqui uma melancolia, e um misto de inocência e maturidade, bem como uma doce amargura. Esta está patente no sentido dedilhar acústico de "One Way Street", e dá lugar à grandiosidade daquilo que soa a um cântico índio do inflamado "No Easy Action". E se por um lado temos a serenidade, cadência e doçura de "Kimoko's Dream House", ou da bela serenata (passe o pleonasmo) que é "Pill Hill Serenade", por outro temos o trovadoresco mas desesperado pedido "Don't Forget About Me", ou ainda as mais sombrias e hipnotizantes texturas de "Resurrection" ou do instrumental "Blues For D".
Profundo, sombrio, melancólico, Lanegan prova em "Field Songs" que é realmente um dos melhores intérpretes e escritores de canções, ou singers/songwriters, se preferirem, da actualidade. Certo, é que a melhor forma de fazer justiça a estas canções é escutá-las vezes sem conta, pois não há palavras aqui que lhes façam justiça.
Ana Gandum
(Mondo Bizarre # 8)
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