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THE MARS VOLTA
A ORQUESTRA CINEMÁTICA
The Mars Volta em estreia no grande ecrã das edições discográficas com “De-Loused in the Comatorium”. Depois do exercício “Tremulant”, Cedric Bixler e Omar Rodriguez são anfitriões do cinema em fascículos de alguns minutos. A relevância que vão assumindo já justifica a omissão nesta introdução de uma certa banda de El Paso.

Aguentar longas caminhadas no deserto, seguidas do vislumbre súbito do oásis da apreensão massiva, e não se deixar atacar pelo novo-burguesismo, endémico nos miúdos convertidos em estrelas, é uma façanha que exige arte e mestria. Assim se pode sintetizar a ainda curta biografia dos Mars Volta. Não acontece sempre e nem sempre isto da História da Música é cíclico, mas as vidas que se seguem a um importante óbito costumam ocupar uma das margens do espectro de aceitação popular e crítica. Os At the Drive-In foram a enterrar em 2001 e desse combo artístico nasceram dois núcleos que são tão antagónicos quanto distintas as pretensões dos membros para o que não chegou a ser o devir da célula-mãe. Os Mars Volta fizeram a trasladação e adulteração das cinzas em três pequenas urnas, uma tríplice de canções de fundo experimental e com perfurações de música salsa no EP “Tremulant”. Os Sparta seguiram a via da castração de estilo, retomando a facção mais emo dos descobridores de El Paso para o mundo.

Em Junho último era editado “De-Loused in the Comatorium”, um testemunho psicadélico em jazz menor que conta a história de um amigo que partiu prematuramente. Prematuro é também este feto enfileirado logo à nascença nas pastas de arquivo do pós-hardcore e do pós-rock por manifesta falência do processo de rotulagem. As direcções que apontam neste registo são as mesmas que um cruzamento importante pode indicar em hora de ponta – muitas mas de acesso difícil. A matriz a decalcar consiste em desafiar a lógica e os convencionalismos e lançar às urtigas o anacronismo das histórias simples contadas à viola ou das notas piegas arrancadas da guitarra. As únicas fissuras detectadas na tela respondem pelos títulos de ‘Son et Lumiere’ e ‘Tira Me a las Arañas’, respectivamente o tema de abertura e um curto intervalo na exibição de todas as outras longas-metragens. John Frusciante e Flea, dos Red Hot Chili Peppers, tocam neste registo. Também Ikey Owens (dos Long Beach Dub All-Stars) e Jeremy Ward tocaram no projecto paralelo De Facto. Ward já não toca porque desapareceu a 25 de Maio do corrente, vítima de uma overdose, quando tinha apenas 27 anos.

A capa do álbum apresenta, em traços garridos e ébrios, um crânio revestido a ouro a emitir um feixe de luz como numa projecção de cinema. E os Mars Volta têm muito de cinemático. Um enredo, a narrativa de um coma real e outro aparente, o adormecimento para o mundo que já não se preocupa com discos conceptuais. Assim sendo, injectar um tratamento de conceitos numa criação híbrida é um destaque auto-suficiente nestas linhas. Mas depois vem a música e a paixão pela descoberta faz-se rebento auricular com tendência a deixar raízes.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 16)