THE MARS VOLTA / SPARTA
O Inferno de Existir
São dois os EPs extraídos da Fénix Renascida que, em tempos, respondeu pelo genérico At The Drive-In. Os projectos The Mars Volta e Sparta mais não são do que o resultado da separação daqueles. Têm, por isso, uma paternidade comum. São os frutos legítimos de uma mesma árvore, os filhos pródigos de um mesmo ensinamento.
Em Novembro de 1994, os At The Drive-In editavam pelos próprios meios o seu primeiro registo "Hell Paso", uma variação fonética da proveniência da formação: El Paso, no Texas. Armadilhados com uma escrita confrontacional e emotiva, as suas actuações ao vivo eram sinónimo de uma imensa descarga de energia. O reconhecimento por parte da crítica e a massificação dos seus admiradores fizeram-se a expensas de uma intensa vida de palco e de muito "word of mouth hype". As edições discográficas foram eclodindo a um ritmo regular. O porto seguro - naquilo que só não foi uma travessia no deserto devido à férrea vontade da banda em continuar - chegaria com um surpreendente "Relationship of Command" no ano 2000. Objecto de uma cuidada produção mas nunca partindo de uma abordagem formatada e acessível, o disco convocou, para si e para aqueles cinco rapazes texanos, um surto de seguidismo, ímpar na biografia da formação. Um ano depois, os At The Drive-In anunciavam um interregno por tempo indeterminado. Ora, essa suspensão de actividades viria a significar, na realidade, o fim.
Mas apenas do primeiro capítulo. A separação - de resto, bastante peculiar - fez-se (supõe-se que inadvertidamente) de acordo com os cortes de cabelo dos elementos que compunham esta excitante proposta musical. Assim, o guitarrista Omar Rodriguez e o principal vocalista Cedric Bixler, donos e senhores de uma magnífica cabeleira "afro", formaram os Mars Volta. Os Sparta resultaram da união de esforços dos "non-afro" Jim Ward (guitarrista dos At The Drive-In), Paul Hinojos (baixista) e Tony Hajjar (baterista).
"Tremulant", o trabalho de estreia dos Mars Volta, apresenta uma densidade que viaja muito para além do comodismo estético. Nele, o experimentalismo mostra terem sido eles as extensões mais rebeldes do tronco comum de raízes no Texas profundo. Com efeito, se as máquinas não estavam completamente arredadas daquele que se tornou no epitáfio dos At The Drive-In, Omar e Cedric concedem-lhes neste EP um grande protagonismo. 'Cut That City', o tema inaugural, espraia-se em argumentos da electrónica antes da toada assumir recortes mais duros e perversos. Elementos que reclamam um subterfúgio algures na música que é debitada. Logo a seguir, 'Concertina' é tocada em registo bilingue: "will those shadows glare from that blank - rimmed stare in a vacancy hush / aunque me dejaste ahogando en el mar / aquestete en la tierra, de la realidad de tu sueno". O recurso ao castelhano não é inédito por estas paragens. À excepção do EP de estreia dos At The Drive-In, os EPs que editariam posteriormente tinham os títulos "Alfaro Vive, Carajo", "El Gran Orgo" e "Vaya". Regressando aos Mars Volta, resta falar da acutilante faixa que encerra "Tremulant". De seu nome 'Eunuch Provocateur', é uma insidiosa investida sónica capaz de erradicar os mais teimosos germes que se depositam nos ouvidos humanos e os impedem de escutar sonoridades não padronizadas. Composto por três faixas apenas, o trémulo disco de apresentação deste projecto - trémulo, porque volátil e efervescente - é uma estimulante predisposição à abertura dos horizontes do rock. E consegue abolir narrativas sonoras estandardizadas e rasgar as convenções instituídas de uma indústria que tende para uma preguiça e mesmidade patológicas.
Os Sparta são - intencionalmente, ou nem por isso - a transladação histórica e designativa da cidade de Esparta, na Grécia Antiga. A frieza patente no título do EP "Austere" é apenas aparente. O disco não é mais uma daquelas inscrições lapidares de qualidade duvidosa na História da Humanidade. Os Sparta são mais orgânicos que os Mars Volta e retomam a linhagem melódica que constituía o esqueleto das canções dos At The Drive-In. Sem grandes recursos à linguagem maquínica, "Austere" parece exigir a desagregação de mundos, a desintegração de sistemas. E não apenas a desmontagem do mundo helénico como o nome da banda poderia sugerir. Parece recuperar algumas das linhas mestras da História da Grécia, edificando cidades-estado e impérios e reduzindo-os a poeira no instante seguinte. O que os Sparta proporcionam, sem os adereços referenciais que a sua designação pode suscitar, é a escuta de música honesta e descomprometida. Uma escuta arterial que faz disparar as tensões mais rasteiras.
Mais ou menos colados à estética da formação radicular, os Sparta e os Mars Volta são como um templo onde o som se pulveriza e os vultos se confundem. Nos meandros da música que produzem, assiste-se à dissecação de vísceras e ao questionamento da verdadeira eficiência dos sentidos. "Emocore" é um termo demasiado redutor tanto para uns como para outros. Como era para os seus progenitores. Até porque eles representam a fractura de certezas, o enterro de verdades inquestionáveis. Não mais a crítica de música será um processo de rotulagem inconsequente e grosseira. "Tremulant" e "Austere" cultivam o caos e lançam as directrizes de uma ordenação. Mas apenas momentânea.
Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 11)
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