MASSIVE ATTACK
TEATRO DE SOMBRAS
Os Massive Attack reduziram-se a apenas um dos elementos do núcleo original. Mas a sua música continua a expandir-se e a capturar o que de mais sombrio vai na nossa alma colectiva. Num tempo de negras perspectivas o grupo continua a ser o dedo que remexe na ferida do nosso inconsciente, a banda sonora ideal para um futuro que parece ser tudo menos brilhante.
O novo álbum dos Massive Attack é, às primeiras audições, um balde de água fria atirado ao ouvinte. Um disco frio e distante que não parece ter pontas por onde se pegar. Longe vão os tempos da soul orquestrada de “Unfinished Sympathy” e “Safe From Harm”, das gentilezas reggae de “Protection” ou até mesmo da sofisticação “dark” de “Teardrop” ou “Angel”. Muito se passou, de facto, desde que em 1991 lançaram “Blue Lines”, álbum seminal para a música popular do final do século XX. Curiosamente, os Massive Attack regressam quando há de novo um homem de apelido Bush a comandar os destinos do planeta e quando se prepara uma guerra do mundo ocidental contra o Iraque. Coincidências que dão uma outra ressonância ao nome do projecto, em particular pelo empenho que 3-D, Robert Del Naja, tem mostrado contra esta guerra no meio musical e social britânico.
“100th Window” surge, assim, num clima gélido de insegurança e medo, é quase uma premonição destes tempos negros em que vivemos, e se calhar compreende-se melhor se o contextualizarmos. Não que a música do colectivo de Bristol alguma vez tenha sido alegre ou sequer bem disposta. Originária de uma terra sombria, essa criação artística sempre foi um reflexo da desolação e negrumes urbanos, produto de tensões raciais, a sublimação de uma aridez interior narcótica e asfixiante. Os Massive Attack transformaram ao longo de mais de uma década essa desvantagem de partida numa música solene e por vezes sublime que é um dos melhores reflexos do mal estar existencial do final do século passado. É uma espécie de sofisticada missa fúnebre pela actualidade, envolvente e intoxicante. E agora, quando se dá início a um novo século e a um novo milénio em que as perspectivas deveriam ser bem mais positivas, quando o futuro se deveria abrir em múltiplas possibilidades, acontece precisamente o contrário. Vivemos na incerteza e na antecipação de que alguma coisa de terrivelmente errado está prestes a acontecer.
Visionários como sempre, os Massive Attack constroem a banda sonora adequada à situação. Mesmo que estes Massive Attack já não sejam os mesmos de sempre. Tidos como um colectivo flutuante onde as colaborações se foram sucedendo à volta de um núcleo original - 3-D, Daddy G e Mushroom -, “100th Window” foi concebido apenas pelo primeiro, após a deserção motivada por questões pessoais dos outros dois. Com 3-D - Robert Del Naja - estão, o ainda e sempre fiel veterano, Horace Andy, o programador Neil Davidge, que já tinha colaborado em “Mezzanine”, e a nova aquisição de peso, a sempre esquecida e “terríble” Sinéad O’Connor. Damon Albarn e Tom Waits terão também feito umas gravações com os Massive Attack mas as ditas, vá-se lá saber porquê, não aparecem em “100th Window”.
Divididas pelas vozes de Del Naja, O’Connor e Horace Andy estão nove ruminações electrónicas, tecidos frágeis de subtilezas programadas à medida do tempo lento dos Massive Attack. Mais uma vez a sensação de asfixia e negrume desolador desfiados por monólogos aparentemente sem emoção, por palavras soltas e rarefeitas. Vozes que são como um eco dos pensamentos suicidas e bizarros de alguém que já passou os limites da normalidade. Nada de refrões orelhudos, ritmos dolentes das Caraíbas, guitarras épicas ou música pseudo-dançável. Mais uma vez a música dos Massive Attack é exigente e extremamente bem elaborada neste propósito: aparentemente nada nela nos agarra à partida mas existe sempre a vontade de lá voltar. De escavar mais fundo e apercebermo-nos de mais. De descobrir as harpas escondidas e as orquestrações em toada oriental, as micro-melodias sintéticas, os pequenos pormenores dub. E apercebermo-nos das palavras e das ideias que aqui estão escondidas. Mais uma vez pouco é dado de mão beijada e cada audição vai funcionando como um teatro de sombras a que cada um vai ter de atribuir um sentido. Desta vez, e para facilitar um pouco, ou talvez para evitar más interpretações, decidiram imprimir as letras…
“100th Window” é outro portal privilegiado para o denso e intoxicante mundo de um dos projectos mais fecundos da música da actualidade. É uma música telúrica que se agarra às entranhas e que embora reflectindo a actualidade não vive das modas do momento sendo ao mesmo tempo futurista e intemporal. É música narcótica e contemplativa mas longe de ser alienante. Um óptima banda sonora para mergulharmos mais fundo dentro de nós próprios e de lá extrairmos algo de válido. Quem responde ao desafio?
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 14)
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