COLÉGIO DE MENINAS
CLASSE DE 2004
A história tem vindo a ser reescrita, ao longo dos últimos anos, numa caligrafia redondinha ou a traço mais grosso: pegando no legado das velhas cantoras country, blues e jazz, uma nova fornada de meninas está a emprestar à música de hoje toques femininos. Sem tiques. Neste primeiro semestre, alguns dos discos mais surpreendentes, emotivos e viciantes são da lavra de senhoras; estreantes ou a caminho da veterania, rockers e/ou cantoras de charme, elas andam aí e ameaçam obedecer ao apelo de Jim O’Rourke: “Women of the world, take over”.
Na vida de todos nós há uma. Além da mãe e da namorada, isto é. Uma mulher que nos apanha os ouvidos de surpresa e nos mantém o coração refém da sua voz, da sua arte, exigindo fidelidade anos a fio. Patti Smith, Throwing Muses e respectivas Kristin Hersh e Tanya Donnelly, Björk ou PJ Harvey são artistas que, longe da reforma, continuam a arrancar suspiros aos seguidores e a despertar curiosidade sobre o que virá a seguir. Na década de 90, as águas da pop, e sobretudo da folk, agitaram-se com a chegada de várias pretendentes ao trono desta idolatria: Neko Case, Aimee Mann, Gillian Welch ou mesmo Lucinda Williams, descoberta há pouco tempo mas muito rodada, trouxeram vitalidade e boa música a um terreno onde a voz e o sentir das fêmeas semeiam, quase sempre, bons frutos.
Em 2004, a torrente de novos talentos e confirmações não abrandou; veja-se o caso de Joanna Newsom, bizarra cantautora norte-americana, que ao invés da típica guitarra acústica, se faz acompanhar de uma harpa. Velha conhecida do instrumento, que começou a aprender aos 8 anos, a jovem vai agora nos 22 e já ganhou os primeiros inimigos. “Milk-Eyed Mender”, o álbum de estreia após algumas maquetas caseiras, foi quem desencadeou a hostilidade.
Dizem que não passa de uma hippie tresloucada, convenientemente sobrinha do mayor de San Francisco, mas os primeiros segundos de “Milk-Eyed Mender” revelam-nos um gracioso concentrado de Nick Drake, Elliott Smith e Bright Eyes, servido por uma harpa multiusos e uma voz que pode levar qualquer um a temer estar a ouvir o disco nas rotações erradas.
Joanna Newsom deixou as cordas vocais na infância, e se às primeiras audições desejamos que fosse outra cantora a tomar conta de músicas notáveis como “The Book Of Right-On” ou “Peach Plum Pear”, depressa nos apercebermos do paradoxo: sem aquela voz, o disco pertenceria a outra pessoa, não à menina que, com a sua obra, diz querer perseguir a inocência, mas também a força e o poder, que sentia enquanto criança. Joanna Newsom é amiga de Devendra Banhart, com quem toca ao vivo, e percebe-se porquê. Quanto a “Milk-Eyed Mender”, deverá ser posto de lado apenas por quem não acredita na magia das fábulas nem em canções com laçarotes de organza, esse tecido inventado para as princesas não-jornalistas.
Os mesmos riachos de sonho são percorridos pelas CocoRosie, duas irmãs americanas que andaram de costas voltadas até se reencontrarem em Paris. Foi na Cidade-Luz que nasceu “La Maison De Mon Rêve”, primeira obra para Bianca e Sierra Casady, responsáveis por voz, guitarra, percussão e ruídos vários.
Em “La Maison De Mon Rêve”, há burros, moedas e galos, há hesitações e acelerações disparatadas, e há canções que muito boa gente mataria por escrever em qualquer altura da sua carreira, quanto mais ao primeiro take. “By Your Side”, promessa xaroposa de fidelidade conjugal, é um clássico instantâneo, com vozes de blues antigo que, tal como todo o disco, crescem no ouvinte como pequenas gotas de suor sobre a pele. Bianca e Sierra têm vozes quentes, com arestas e sujidade, e bebem, em “Terrible Angels”, “Jesus Love Me” e “Madonna”, de uma religiosidade transviada, sexy até.
Pecado? Talvez, mas poucos minutos bastam para que o charme das manas nos arrebate, e para que escolhamos “Good Friday” como a canção de amor do ano. Um álbum em absoluto estado de graça, ora terno, ora pérfido. Nos mesmos celeiros, brincando em baloiços próximos, parece ter crescido Laura Veirs. Nascida no estado do Colorado, a norte-americana nutre uma paixão assolapada pela Natureza, o que a levou a tirar o curso de Geologia. Na música, Laura Veirs habita uma região tradicionalista, pouco poluída por inovações que, ainda assim, visitam ocasionalmente os seus trabalhos de originais, “Troubled By The Fire” (2003) e “Carbon Glacier”, lançado este ano.
Boas letras e uma melodia não raras vezes sinistra são o prato principal deste último, servido por um sotaque redondo e acordeões e violinos ligeiramente insurrectos. “Carbon Glacier”, baptizado a partir de uma formação natural que a cantora admira, é suavemente assustador, discretamente boémio, e sugere que, como geóloga, Laura Veirs estuda as formas da música americana, com um falso distanciamento que acaba por desaguar em carinho. No seu ambiente de saloon educado, negro mas não retinto, “Carbon Glacier” prova o potencial da senhora para abandonar o ninho onde se acotovelam cantautoras menos dotadas.
Igualmente gaiata costuma ser Mirah, que com “Advisory Committee” (2001) ganhou merecida fama de estrela ascendente no panorama indie dos EUA. É, como tal, complicado ouvir “C’Mon Miracle” e não sentir uma pequena desilusão. O álbum deste ano para a pequena maga de “Cold Cold Water” não é mau; encontra Mirah mais contemplativa, subindo um ou dois graus na escala de calor e maturidade. Mais perto de Joni Mitchell do que de Rickie Lee Jones, a “mascote” da K Records continua a assinar letras notáveis e canções de encantar – “We’re Both So Sorry” encontra Mirah no País das Maravilhas, “The Dogs Of B.A.” é doce, muito doce – mas a produção perdeu fôlego e a obra-prima não se repete. “Exactly Where We’re From”, a faixa semi-escondida, mostra que a porta continua escancarada ao génio.
Quem regressa em grande, em 2004, é Shannon Wright. “Over The Sun”, o disco apurado em lume lento com Steve Albini, é um dos melhores álbuns (rock) do ano e um portentoso tour de force para a artista que se deu a conhecer, em Portugal, na primeira parte de um concerto dos Calexico. A intérprete não perdeu nenhuma da emotividade em bruto que a caracteriza, combinando-a com as canções mais perfeitas da sua carreira e uma parte instrumental devastadora. Ouvir “Avalanche” e não (querer) chorar é ser insensível não à tristeza, mas à beleza de uma composição monumental. E descobrir, repetidas vezes, todas as outras canções de “Over The Sun” faz disparar violentamente a nossa fé na expressão singer-songwriter. Meninas, allez!
Lia Pereira
(Mondo Bizarre # 19)
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