MINIMAL COMPACT
O Regresso à Torre de Babel
Será o regresso dos Minimal Compact apenas mais um na euforia de revivalismo oitentista? Parece que não. De facto esta banda de base israelita, mas muito cosmopolita musical e geograficamente, foi um intenso vórtice cultural entre o Ocidente e o Oriente na década de 80, e ouvida hoje continua a sê-lo. E há esperança de que a magia da música de Samy Birnbach, Berry Sakharov, Malka Spigel, Rami Fortis e Max Franken tenha força para construir de novo a Torre de Babel no Séc. XXI.
A história começa em 1981 com a migração de Israel para Amesterdão de Malka (baixo e voz), Samy (voz e textos) e Berry (guitarra, teclas e voz). Iam à procura de uma identidade musical. Não eram músicos profissionais e nem sequer sonhavam que alguma vez iriam ter um papel crucial no pop-rock europeu dos anos 80. Gravaram em casa uma demo com dois temas e tornaram-se um dos primeiros projectos a assinar pela Crammed Discs. A gravação oficial acabou por se estender para um EP – “One” – que deu à luz os míticos “Statik Dancin” e “Creation Is Perfect”. A new wave cheia de ritmo e com sabor a Médio Oriente cativou desde logo a imprensa. Surgia assim, em 1982, o primeiro LP, “One By One”. O baterista holandês Max Franken aderia ao projecto e começavam as digressões europeias dos Minimal Compact que fizeram história – curiosamente, a banda nunca tocou nos EUA porque nunca lhes concederam vistos de entrada no país. “Deadly Weapons” (1984), que abriu as portas à colaboração permanente do guitarrista Rami Fortis; “Raging Souls” (1985), o mais popular; “Lowlands Flight” (1987), o mais experimental; “The Figure One Cuts” (1987), o último de originais; e “Live” (1988), que documenta a banda ao vivo e já editado a título póstumo, foram os marcos de uma curta carreira de sete anos com grande sucesso artístico. Os últimos anos não foram pacíficos e alguns desencontros resultaram num final amargo e mal resolvido.
O regresso começou a desenhar-se 15 anos depois, com a exibição do documentário sobre os Minimal Compact realizado por Nathan Mandelbaum, um israelita fã do grupo. Samy Birnbach revela que já tinham existido tentativas de reencontros no passado, recusadas por ele próprio, que entretanto se afirmou como DJ Morpheus nas pistas de dança. Era a negação de qualquer tipo de fenómeno de nostalgia colectiva. Mas havia entre os músicos a sensação que o fim nunca fora definitivo. E sem qualquer tipo de racionalização, voltaram à estrada como se o último concerto tivesse sido ontem. A digressão do regresso passou pela Europa e por Israel, onde foram recebidos em apoteose. Conta Birnbach que num dos concertos em Tel Aviv tocaram para 3 gerações e mais de 3000 pessoas em delírio, onde até se encontrava a sua mãe. Aliás, foi a mesma imprensa israelita que os baniu nos anos 80 por viverem nos Países Baixos e por não cantarem em hebreu mas sim em inglês, que hoje os coloca nos píncaros e os impulsiona para um regresso aos originais.
Quanto à caixa que aqui nos trás "Returning Wheel (classics, remixes & archives)" – (3 x CD Crammed Discs/Magamúsica), ela recupera a magistral e solitária epopeia de um grupo que soube renovar o imaginário do rock e antecipar mensagens extremamente actuais. O primeiro CD é o «best of» necessário e sem grandes surpresas, a não ser o primeiro tema "Dedicated", nunca antes editado. Os remixes e remakes, comissionados por Samy Birnbach e sugestivamente intitulados "There's Always Now", são na sua maioria electrónica no seu estado dançável, alguns deles pouco ou nada fiéis aos originais, destacando-se o último tema, um remake do maravilhoso "When I Go", aqui na voz de Efrat Ben-Tzur. O interesse maior para os aficionados está sem dúvida no CD "Music From Upstairs (Archives)", as gravações caseiras "perdidas" que Malka Spigel felizmente guardou. Mais de uma hora de demos inacabadas, música encomendada para filmes, puras experiências, gravações para uma rádio holandesa em 1982, e algumas demos gravadas há poucos anos na Bélgica, aquando de uma reunião efémera em meados dos anos 90. "Protótipos electro da época", nas sábias palavras de Birnbach.
Arrumada a casa com esta apetecível caixa, parece que os Minimal Compact vão mesmo passar de projecto semi-abandonado a projecto assumido em definitivo e para o futuro. Na senda da “banda-irmã” Tuxedomoon que também foi uma referência do rock avant-garde dos anos 80 na Crammed Discs e que também se reuniu recentemente. A ver vamos se a Torre de Babel dos Minimal Compact também tem forças para se reerguer e com a mesma energia do passado.
Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 19)
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