MOMUS
DELICADAMENTE PERVERSO
Nicholas Curie, escondido debaixo da capa de Momus, aventura-se num projecto discográfico que compreende dois CD's de nome "Stars Forever". Os discos são um passeio pelas coisas e pessoas que de um modo ou outro afectaram, influênciaram ou chamaram a atenção de Nicholas.
Momus é uma deusa grega que personifica o sarcasmo. Criatura sempre disposta a livrar-se dos que lhe fazem frente, Momus deleitou-se a ver Zeus fazer desaparecer boa parte dos homems que tanto a aborreciam nas guerras de Tebas e Tróia. Presume-se que a deusa deva ter ficado a observar a mortandante, as quetiúnculas e misérias humanas, lá do alto com um sorrisinho irónico. Momus, a personagem criada por Nicholas Currie oferece um manual de comportamento humano onde a ironia, a jocosidade, a bravata, e o humor caústico se aliam a uma admirável capacidade de descrever as mais delicadas situações.
Sem fazer caso de subtilezas Momus avança na sua cruzada de exposição das manias humanas, mesmo que,a os olhos de muitos, elas pareçam abjectas. Se, em tempos, o "Professor Shaftenberg" ia ao Japão amarrar garotas de escola e comprar-lhes a roupa interior usadae e demais bizarriasdas personagens de ficção de Momus estavam na ordem do dia, agora trata-se de inumerar, de compilar estórias com personagens e situações verdadeiras.
"Stars Forever"é uma mistura eclética de pop, electrónica, sons dançaveis, piscadelas de olho ao disco sound, à longa e fértil tradição de cabaret e burlesco, amassada com elegância e servida numa bandeja de prata. E as letras, sempre eloquentes relatam pequenas biografias, estórias e paixões: a canção dedicada à editora discográfica de eleição de Momus (ou será de Nick Curie?) em criança, "Minty Fresh" e na mesma temática, o universo pop de "Indiepop list". E só quem nunca compilou listas ao ouvir o "Som Da Frente" não tem sorriso nostálgico ao ouvi-la. E depois há as canções para os artistas "Jeff Koons", "Florence Malik" e as que contam as desventuras de pessoas anónimas (pelo menos por estas bandas) ou não, que pela mão de Momus se tornam personagens de cordel: "Keigo Oyamada" que celebra o génio desse japonês mestre na arte da manipulção de sons que é Cornelius; "Akiko Masuda" a ex-geisha que se tornou numa maníaca dos média; "Steven Zeeland" o tipo enfezado que vai para os marines fazer trabalho de secretaria, requesita fotos de marines nús do departamento de atletismo,e escreve livros de nome: "Barack Buddles and Soldier Lovers", "The Masculine Marine" ou "Sailors and Sexual Identity". Afinal, como bem se sabe "...every soldier and sailor's potencially bend... ". "Steven Zeeland" tem, não só um dos melhores fundos sonoroa de "Stars Forever", um misto de fanfarra marcial e valsa pop, mas também uma das letras que mais lembram o velho Momus de língua afiada e que corta a direito, fazendo tábua rasa de todos os preconceitos (incluindo os seus).
"Stars Forever" merece um lugar no coração de todos os gatos tresmalhados, inadaptados e excepcionais deste mundo.
Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 4)
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