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MORRISSEY
VINTE ANOS DE TIROS CERTEIROS

“I’ve been dreaming of a time when / to be English is not to be baneful / to be standing by the flag, not feeling shameful / racist or racial”. Na sua terceira década de carreira, e após sete anos de ausência, esta é uma de muitas declarações fortes que “You Are The Quarry”, regresso e motivo de orgulho para Morrissey, contém.

Para quem os encontra, e deixa o seu coração ser irremediavelmente conquistado pelas suas canções, os anos Smiths não têm que ser só os da sua existência enquanto banda. De 1983 a 1987, foram os anos em que Stephen Patrick Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce deixaram um legado que continua a ter um valor incalculável para fãs antigos, e a iluminar a consciência de admiradores mais novos que os vão descobrindo, seja de que maneira for.

Uma associação tão perfeita e abençoada como parecia ser a das guitarras de ressoar mágico e músicas de Marr, com a voz e letras de Morrissey, seria sempre uma fasquia altíssima a seguir, na altura de se delinearem planos de carreira nos anos vindouros ao fim da banda. Quando Morrissey e Marr continuaram, cada um, o seu caminho, “Viva Hate” (1988) revelou-se um começo auspicioso para aquele a quem chamam “Mozzer”. A devoção dos seus fãs mais acérrimos foi desde sempre notada em concertos em que estes invadiam o palco para abraçar o seu ídolo. Os Smiths foram, sem margem para dúvidas, uma daquelas bandas que “salvou vidas”. A forma de Morrissey expressar angústia, auto-distanciamento do mundo, solidão ou vicissitudes do lado mais cinzento do amor, tornaram-no um ícone. Tornaram-no importante. Tornaram-no um tradutor de algo sentido, mas nunca concretizado.

Se foi preciso esperar até 1994 e “Vauxhall And I” para que Morrissey voltasse a fazer um excelente álbum, o que tinha vindo até então não envergonhava a sua carreira. Mas esse disco esteve à beira de se tornar o canto do cisne. Nem “Southpaw Grammar” (1995), nem “Maladjusted” (1997), ofereciam mais do que redenções esporádicas, longe dos picos outrora atingidos pelo homem que se fez notar também pela poupa, pelos óculos graduados e pelos gladíolos enfiados no bolso de trás das calças. O decréscimo nas vendas dos seus álbuns, que cada vez mais rapidamente desapareciam das tabelas, levou-o a um semi-exílio, sem contrato discográfico, e limitando-se a espaçadas aparições ao vivo, uma das quais em Portugal.

Hoje a viver na Califórnia, esta ideia do nadir atingido por Morrissey é fundamental para que se comece a dar uma noção do que pode significar “You Are The Quarry”. Quando se soube que a Sanctuary tinha sido a editora a pegar na sua carreira interrompida há sete anos, era cedo demais para prever fosse o que fosse. A forma estava em queda livre. Quanto poderia ter-se erguido desde então? A primeira resposta chamou-se “Irish Blood English Heart”. Confiante, temerário, de voz activa e firme, Morrissey dividiu-se entre um refrão de guitarras punk-pop, e um verso que assentava estacas no ouvido. Orgulhoso, e consciente daquilo que renega, o final abrupto da canção deixava a esperança de que “You Are The Quarry” pudesse, realmente, ir para lá de um single.

Morrissey está tão orgulhoso como sempre esteve. Simplesmente, desta vez não soa às proclamações ocas de um “has-been”. Soa a alguém que sabe que vai mostrar ao mundo que fez muito mal em não acreditar que ele poderia, em 2004, bater-nos à porta com tal força. “America Is Not The World”, canção de amor-ódio para com a sua actual casa, ambígua, como é hábito, puxa pelos “oooh” até ao ponto ideal de fervura. “I Have Forgiven Jesus” desce na ponte para voar no refrão, lindíssimo, e furar pelo meio de obstáculos no fim, enquanto Mozzer vocifera “do you hate me?”. “Come Back To Camden” fala com graça infinita de um local “where taxi drivers never stop talking”, e tem um final à tema para espectáculo teatral.

Passo a passo, Morrissey vai deslumbrando e deixando mandíbulas incapazes de se fecharem. “I’m Not Sorry” entra comedida com guitarra acústica a dar primazia à voz e a um bonito acompanhamento rítmico. “The woman of my dreams / She never came along”, diz-se nesta canção. Há quanto tempo não tínhamos tantas frases memoráveis deste senhor? A melhor? Talvez em “Let Me Kiss You”, música para todas as sombras de árvores inglesas de fim de tarde: “Close your eyes and think of someone you physically admire / And let me kiss you”. Mais à frente, na mesma canção, ouve-se “But then you open your eyes / And see someone you physically despise”. Ouçam todo o resto, e substituam as frases destacadas ao vosso gosto. “You Are The Quarry” é o regresso do ano.

Nuno Proença
(Mondo Bizarre # 19)