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MÚM
Júbilo Anónimo
Os Múm são mais um daqueles projectos que vêm do frio para aquecer lares e incendiar paixões enregeladas. Compatriotas dos Sigur Rós, editam agora o seu segundo álbum - “Finally We Are No One”. A provar que o degelo é a mais profícua fase no processo de gestação da música.

Executantes de uma electrónica de vincos bem trabalhados, os Múm são o núcleo produtivo constituído por dois rapazes e duas raparigas gémeas com formação clássica. Enquanto estas são capa do álbum “Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant” dos Belle & Sebastian, Smárason (um dos elementos masculinos da formação) decide abandonar a forma convencional de compor música - designadamente, a predominância das guitarras nas suas anteriores bandas - ao perscrutar a atmosfera viciante dos Aphex Twin. Formados em 1997, os Múm têm vindo a fustigar a superfície da pop enquanto sondam os territórios tendencialmente virgens da experimentação, em pinceladas quase infantis e inconsequentes. O álbum de estreia (“Yesterday Was Dramatic, Today Is OK”) viria a desabrochar no ano 2000, sendo editado pela Thule. Seguiram-se dois discos de remisturas: “Please Smile My Noise Bleed” e “múm:remixed”. Os Múm são uma indagação deste e de outros mundos, um alargamento até ao infinito das potencialidades da música. A base instrumental é complexa, acústica e maioritariamente formada pelo violoncelo, o acordeão, a melódica, as guitarras e o baixo. O tecido feito de faustosos desvarios é rasgado por frágeis e cortantes melodias de voz. Voz feminina, delicada e perversamente hipnótica na ingenuidade com que é projectada. Este “Finally We Are No One”, o segundo álbum publicado e o primeiro pela Fat Cat Records, respira através de guelras disformes e texturas de uma densidade áspera, que só poderia ser retirada das frias paisagens da Islândia. As canções alimentam-se da seiva que corre por entre as artesanais orquestrações que suportam o álbum. Os sons são recolhidos do exterior mas, na altura da composição, passam a integrar o universo privado, individualizado de uma música que preenche o intervalo dos sonhos (‘Sleep/Swim’). O ritmo, ora compassado ora sorumbático, é o de um conto infantil adulterado na forma, tradicional no conteúdo (‘Now There’s That Fear Again’). Mas o gelo que serviu de lubrificante à feitura do disco é corrosivo na forma como os conceitos são abordados - ‘Don’t Be Afraid, You Have Just Got Your Eyes Closed’. E perpassa o magma que brota da multiplicação de combustões. Em seguida, as palavras atravessam a massa, entretanto formatada, e circunscrevem os sons com a violência do algodão. O resultado não chega a provocar o caos - é, antes, uma dolente tentativa de mutação.

Se, umas vezes, evocam a agridoce proposta dos Sigur Rós, outras, como em ‘Green Grass of Tunnel’, os Múm conseguem descongestionar as vias por onde se desloca a música. Onde aqueles sucumbiam no dealbar do clímax, estes vaticinam desvios conceptuais e estéticos para o planalto sonoro que vão calcorreando. E depois, há o conforto que parecem sentir numa indigência - não totalmente miserabilista, antes consciente da recatada posição que ocupariam em hasta pública - e que o título do álbum tão bem esboça. “Finally We Are No One” é um trabalho para escutar à medida que a alma se dilui na cinza da intemporalidade.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 11)