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NADA SURF
O ENCANTO DA SIMPLICIDADE
Depois dos equívocos provocados pelo sucesso radiofónico de "Popular", a canção que os projectou para um considerável patamar de exposição, os Nada Surf estão agora numa nova fase da sua carreira. Assentada a poeira, surge o magnífico "Let Go".

Os Nada Surf são um caso curioso. Quando, há uns anos atrás, o álbum "High/Low" saiu para a rua, poucos foram os que lhe deram atenção. No entanto, o grupo gozou três minutos de fama graças a "Popular", a canção mais catchy do disco, que se tornou num hit radiofónico, garantindo-lhes alguma exposição que deixava antever o salto para o sucesso crescente. Tal não aconteceu. O longa duração seguinte, "The Proximity Effect", passou quase despercebido, tendo o trio nova-iorquino prosseguido discretamente o seu caminho, longe das euforias mediáticas efémeras, evitando inteligentemente o terreno pantanoso das bandas "one hit wonder" e decididos a provar, com a passagem do tempo, uma cada vez mais sólida maturidade musical, sinal de que estes rapazes têm muito mais para oferecer do que apenas uma canção que toda a gente ouviu na rádio.

Apesar do sucesso de "Popular" ter deixado a sensação de ter sido mais um "acidente de percurso" do que ambição para fabricar uma melodia laroca muito "radio friendly", a verdade é que os Nada Surf em vez de engrossarem a lista dos desaparecidos em combate, vítimas de um breve pico mediático que rapidamente desagua no esquecimento generalizado, apuraram de tal forma a sua noção de canção que ganharam com mérito um lugar no lote de propostas mais refrescantes da esfera pop/rock actual.

"Let Go", o novo álbum, revela uma banda que tanto se apaixona pelo poder da electricidade, como pelas doces incursões pop. Se nos trabalhos anteriores era possível vislumbrar talento ainda que não completamente consolidado, as doze canções que integram "Let Go" são um passo em frente na capacidade de compor canções francamente cativantes. O som do grupo apoia-se em linhas melódicas simples, ritmos precisos evidenciados por um baixo irrequieto e uma bateria dinâmica, e jogos vocais plenos de ricas harmonias, construindo assim magnificas canções filiadas na tradição “college rock”, entre a pose cool de um certo abandono que se deleita com canções solarengas, canta com paixão, e celebra a vida e uma certa melancolia onde a suavidade da voz encontra aconchego em melodias gentis. As canções dos Nada Surf falam de amor, desejo, paixão, ansiedade, necessidade de fuga e solidão com a sensibilidade e a sabedoria de quem tem o dom de traduzir sentimentos universais em canções, canções essas de raiz clássica, é certo, sem a intenção de desbravar novos mundos, preferindo a beleza das coisas simples. "Blizzard Of 77", "Là Pour Ça" ou a muito velvetiana "Blonde On Blonde" são pequenas pérolas, verdadeiros oásis de melodia, de um bom gosto assinalável. "The Way You Wear Your Head", "Treading Water" ou "Happy Kid" são puras descargas power-pop-punk repletas de suculentos riffs. Pelo meio, ainda há "Hi-Speed Soul", com um aroma muito anos oitenta. Em resumo, um excelente álbum que fará as delícias dos apreciadores de bandas como os Fountains Of Wayne, Weezer ou Foo Fighters.

Nuno M. Castêdo
(Mondo Bizarre # 13)