NAUTICAL ALMANAC
A OUTRA AMERICANA DO SÉCULO XXI
Os Nautical Almanac formam um cândido e terrorista casal dos que tem por hábito destilar humorística e violentamente a sua electrónica disfuncional e manchada sobre o público. Manchada, há que dizê-lo, por uma apropriação bruta dos sons que a tecnologia deixa a gemer, como “Cisum”, o mais recente trabalho desta dupla norte-americana, assim o demonstra.
Como nos tempos de Hank Williams, Muddy Watters ou mesmo Leo Kottke a música mais urgente de hoje está, porventura, novamente a ser feita em lugares esconsos e pouco iluminados. Já não em bares suspeitos, motéis decadentes ou junto às linhas de comboio, mas em casas comunitárias, galerias falidas ou centros artísticos em autogestão. E a guitarra, o banjo, a harmónica já deixaram há muito de ser os instrumentos eleitos. Outros se lhes acrescentam chegando mesmo a suplantá-los. Mas a música nasce das e pelas mesmas razões. Música feita pelas “pessoas” mesmo que “mal tocada” ou destituída de qualquer aparente saber fazer.
Neste ainda secreto lugar de criatividades vivem os Nautical Almanac pois aquilo que fazem desconhece para já o carimbo das taxinomias. Formados por James Twig Parker, um ex-Wolf Eyes que, reza a lenda terá andado fugido do FBI, e Carly Ptack, jovem artista noise, oriunda do estado de Michigan, estabeleceram-se na cidade de Baltimore, Maryland, onde para além de fundarem a sua própria editora – a Heresee – fizeram nascer um espaço onde as intervenções musicais afectas às novas sonoridades da cena underground dos EUA pudessem ter lugar.
Antes que alguns mal-entendidos surjam convém sublinhar que esta electrónica (ou se quiserem esta apropriação de meios tecnológicos para produzir sons) está muito longe da congénere europeia. Semelhanças só com as últimas pesquisas da Mego e ainda assim imperam as distâncias. Esta é uma electrónica feita dos despojos, dos detritos, dos restos. Feita não com cortes ou colagens cirúrgicos, mas por intermédio de uma acumulação excessiva na qual a densidade sonora assume a mesma relevância que encontramos no hardcore e no trash-metal.
Aos Nautical Almanac basta-lhes para tal reinventar os seus próprios instrumentos: arrebanhando fios, cabos, detectores de metais, alarmes, sons retirados dos seus contextos originais, computadores ou teclados doentes. Em suma, lixo ou, se quiserem, electrónica parida sem condições de higiene. Música feita isso sim com condições realmente existentes. Entre o húmus, a ferrugem e os restos de silicone.
Depois de vários CDR’s e cassetes este casal de amantes do ruído atingiu, este ano, com o picture-disc “Cisum” o seu mais distinto passo. Invocando tanto a música concreta como o muzak, o heavy-metal e o noise, divide-se em quatro simples temas onde as pulsões sonoras se sucedem numa deriva feita de falsos crescendos que se entrecortam antes de chocarem. A voz de James Twig Parker ouve-se algures, presa com um sorriso, entre o avanço trepidante dos gritos das máquinas destituídas de razão e acossadas por um riff. Assoma um lado lúdico por entre esta cacofonia assustadora. De repente um som de um banjo faz-se notar…ou mesmo uma melodia violentada. Mas no fim só há lugar para o nosso silêncio. Ainda assim o fascínio é imenso…lembram-se de “Videodrome”?
José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 17)
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