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NEIL MICHAEL HAGERTY
O ESTRANHO MUNDO DE HAGERTY
Os Royal Trux acabaram no auge da carreira com a separação marital e musical de Neil Hagerty e Jennifer Herrema. Das cinzas renasce Neil Michael Hagerty, o sobrevivente de uma banda que marcou o rock dos anos 90. Mas longe de apostar numa continuação, como provavelmente muitos esperavam, Hagerty lançou-se na aventura a solo com um primeiro álbum que marca um regresso às origens mais negras. Um disco perturbante e avassalador. De génio.

Este é sem dúvida um registo difícil de abordar. A primeira vez que o ouvi fiquei sem perceber o que me tinha atingido. À partida, somos confrontados com ritmos toscamente programados, polvilhados pelo teclado de um orgão e outros sons dispersos, com constantes monólogos de guitarra eléctrica. Nas audições seguintes (sim, porque os discos que nos trazem algo de novo raramente entram à primeira), as particularidades começaram a emergir, e aquele que inicialmente parecia um mero registo dissonante, continua a sê-lo, mas arrasta-nos sem dó nem piedade para o seu âmago.

Se a estrutura que está por detrás das músicas pode parecer alegre e descontraída, com caixas de ritmos e alguns suspiros pop e soul, aquilo que Hagerty transporta para a frente de combate é a sua guitarra, que grita ao ponto de se tornar quase inaudível, mas estranhamente aprazível. "Tender Metal" é elucidativo no título e no conteúdo. Isto significa que os instrumentos por si próprios não trazem nada de novo. O valor deste disco está na soma desses instrumentos, orquestrados pela mente turtuosa de Neil Hagerty. E se o produto final soa como que incompleto, é essa sensação de vazio que faz deste disco algo de inteiramente original. Tão original como o facto de um músico, que se tem pautado pela descrição, decidir avançar em nome próprio, ainda mais com o nome completo, como se se tratasse de um "singer/songwriter". A verdade é que Neil Michael Hagerty até encaixa nesse epíteto, se bem que numa definição totalmente diferente da habitual, como se pode constatar, por exemplo, em "Creature Catcher" ou "Whiplash in the Park". Hagerty define-se pela excentricidade, das letras às composições, passando pela voz que por vezes soa a adolescente em processo de crescimento. Oiça-se "Repeat the Sound of Joy". Uma excentricidade remetida ao seu muito personalizado canto do meio musical. O que este álbum vem provar, mais uma vez, é que o rock está vivo, ao contrário do que muitos dizem para aí. Mas também há que referir que este não é um rock de fácil consumo. Quem for adepto fervoroso de todos os 16 anos de vida dos Royal Trux, vai com certeza aderir à proposta de Hagerty. Mas quem nunca conseguiu entrar na atmosfera de "Twin Infinitives", nem ouvir de uma ponta à outra o magistral "Singles, Live & Unreleased", o estranho mundo de Hagerty pode ser exactamente isso: demasiado estranho.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 8)