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EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN
MOVIMENTOS PERPÉTUOS
Antes, os niilistas Blixa Bargeld e N.U. Unruh, os “Geniais Diletantes”, como então se apelidavam, entregavam-se seminus a insanes percussões numa “autobahn” que atravessava Berlim Ocidental. Hoje, é de malas de viagem que o grupo, onde os dois se mantêm desde o início, arranca o ritmo para temas que já não exalam a cidade. São eles próprios o aroma que viaja de um lado para o outro, “de A para B por causa do amor”. O muro caiu e a música dos Neubauten está também cada vez menos física, tanto no conteúdo, como na forma.

Na linguagem dos Einstürzende Neubauten, já não consta o mote “hör mit schmerz” (ouvir com dor). Desde “Ende Neu”, que o alarido da serralharia perdeu lugar, quase definitivamente, para os arranjos de cordas, para os suaves tubos de plástico soprados ou para a delicadeza que Blixa Bargeld coloca na voz. Em 2000, o silêncio era, aliás, sexy, como sabemos. O terrorismo sonoro com que álbuns como “Kollaps” ou “Halber Mensch” rasgaram fronteiras, no seio das quais vieram a albergar-se mais recentemente os fazedores de barulho japoneses, por exemplo, foi reduzido ao mínimo. A tal ponto que os gritos de Blixa soam hoje tão baixinhos que quase se perdem no meio das misturas de temas como “Perpetuum Mobile” ou “Ein Selterner Vogel”, neste novo disco. Já não há mutilações no palco. Na verdade, F.M. Einheit, que frequentemente terminava os concertos nas urgências dos hospitais mais próximos, já nem sequer faz parte do grupo. Blixa Bargeld também já não é o cadavérico rapaz de cabelos espetados e olhos esbugalhados que vociferava palavras de ordem contra os fracos alicerces da Berlim Ocidental dos anos 80. Ainda que mantendo intocável a aura de autor maldito, está hoje bem cotado no sector alemão da cultura, percorre o mundo a apresentar obras financiadas pelo Goethe Institut (o qual já ajudou, aliás, a que os Neubauten viessem tocar a Portugal, por exemplo) e é convidado a participar em peças de teatro que passam pelos mais conceituados palcos alemães. O ex-guitarrista dos Bad Seeds já não se inspirará, por exemplo, em Shiva, a deusa hindu da destruição. Agora, é sobre outras divindades, como Boreas, o deus grego do vento norte, que recaem as atenções, como se pode escutar na faixa com o mesmo nome no novo disco. O vento, o fluxo, o movimento perpétuo são elementos que perfazem o conceito que tutela todo o novo disco dos Einstürzende Neubauten. Berlim deixou de ser o leit-motiv por detrás das composições. Agora fala-se em partidas e em mudanças de ares (“Ich Gehe Jetzt”), em bagagens e em viagens (“Perpetuum Mobile”) ou em aves raras que transportam canções novas no bico (“Ein Seltener Vogel”).

Depois de “Silence Is Sexy” (2000) e do tomo terceiro da compilação “Strategies Against Architecture” (2001), os Einstürzende Neubauten fartaram-se da indústria, mas chegarem mais tarde à conclusão que ainda não podem prescindir da mesma. A ideia inicial – ter os admiradores a financiar a produção do novo álbum, expondo, em contrapartida, todo o processo de composição aos olhares vindos de fora, via webcams, e oferecendo um disco exclusivo – parecia estar a resultar, mas os problemas vieram quando se começou a pensar numa digressão. Não se vai para a estrada sem um disco nas lojas, quando apenas duas mil pessoas, nas palavras de Blixa à revista Wire, tem acesso àquilo que se pretende apresentar ao vivo. A Mute, entretanto engolida pela multinacional EMI, voltou à cena para lançar agora este “Perpetuum Mobile” ao público em geral. Os fãs que acompanharam o grupo em todo o processo de criação dos novos temas conseguiram um disco único, com temas exclusivos, e preparam-se agora para uma segunda fase do projecto, uma vez mais coordenado a partir do site oficial (www.neubauten.org), já a pensar no próximo disco, a ser gravado ao vivo num espectáculo criado de raiz que será apresentado em diversos pontos do planeta.

“Perpetuum Mobile” é tudo aquilo que se dizia ao início deste texto. Saudosismo? Engana-se o leitor se pensar assim. O novo disco vem mostrar, à semelhança do que fizeram igualmente “Ende Neu” ou “Silence Is Sexy”, como os Einstürzende Neubauten conseguem, passados mais de vinte anos, continuar a renovar-se sem deixar cair os parentes na lama, manter o discernimento sem se tornarem aborrecidos e previsíveis como acontece na maior parte dos projectos que chegam a esta idade, dos mais comprometidos aos mais diletantes. Condescendência para com os mais velhos? Engana-se o leitor de novo.

(A edição especial do disco, acompanhada de um DVD áudio com misturas 5.1 para quatro faixas e embalada numa caixa luxuosa, em tudo semelhante à de “Silence Is Sexy” ou à de “Strategies Against Architecture III”, chega aos escaparates das lojas portuguesas a um preço demasiado inflacionado, principalmente quando comparada com o que lojas online pedem lá fora. A piorar o cenário, “Perpetuum Mobile” não pode ser ouvido num leitor de CDs do computador. É o progresso?)

Vítor Junqueira
(Mondo Bizarre # 18)