NEW ORDER
HABILIDADE DE DÉCADAS
São uma das vozes mais distintas da música inglesa, e este ano perfazem 25 anos de actividade. Com “Waiting For The Sirens’ Call”, os New Order demonstram total confiança e domínio da sua arte, lançando um punhado de grandes músicas, que farão parte de um panteão longo e dourado.
A história, é bem sabido, começou quando a carreira dos Joy Division terminou, a 18 de Maio de 1980, com o suicídio por enforcamento do vocalista Ian Curtis. Para lá de editarem uma das últimas músicas escritas pelo falecido (“Ceremony”), os restantes membros, Bernard Sumner (guitarra e agora também voz), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria), decidiram, com a nova recruta Gillian Gilbert (teclas), prosseguir carreira sob a denominação New Order.
“Movement”, de 1981, foi o primeiro passo de longa-duração para uma carreira que, em 2005, completa 25 anos preenchidos por clássicos de uma pop tão acessível quanto visionária. Apesar do longo interregno vivido entre 1993 e 2000, após a edição de “Republic”, e da saída de Gilbert para tomar conta da sua filha e de Morris, as qualidades que fizeram o nome dos New Order estão bem presentes no novo “Waiting For The Sirens’ Call”. O novo disco, que conta com os préstimos do novo guitarrista Phil Cunningham é os New Order a serem os New Order, e poucas coisas no mundo da música serão melhores do que isso.
“Waiting For The Sirens’ Call” é o oitavo álbum de estúdio da banda de Manchester, se descontarmos a indispensável colectânea de singles “Substance”, e o segundo desde o regresso às actividades, cujo primeiro fruto editado foi “Get Ready” em 2001. Finda a digressão de promoção a “Republic”, desentendimentos entre Sumner (Dicken de nascimento, Albrecht no tempo dos Joy Division) e Hook levaram a que a banda passasse um longo período sabático em que pouco ou nenhum contacto tiveram entre si.
Sumner tocou com Johnny Marr (ex-The Smiths) nos Electronic, Hook formou os mui New Order-escos Mónaco com o vocalista David Potts, Morris e Gilbert editaram um álbum do projecto The Other Two. Foi em 2000 que chegou a notícia que os New Order iriam regressar às actuações ao vivo, nas quais prometiam incorporar, pela primeira vez, canções dos Joy Division. “Get Ready”, antecedido pelo single “Crystal”, veio no ano seguinte, e provou que a alma estava bem viva, mesmo que com um volume mais alto nas guitarras. Já este ano, a banda foi recentemente homenageada nos prémios do semanário New Musical Express, com o galardão de Godlike Genius Award.
O som New Order assenta em pilares fortíssimos e de uma identidade à prova de bala. Sumner é o vocalista mais cheio de soul que a pop com sintetizadores à mistura alguma vez ofereceu. A frase “I get this feeling I’m in motion / A sudden sense of liberty”, do êxito “True Faith”, será bem ilustrativa da sua forma de cantar, carregada de esperança de vida e de lágrimas de deslumbramento, apesar de não esquecer tudo o que os dias e noites anteriores lhe atiraram para cima.
E há a sua poesia de uma ingenuidade bela, onde entram frases como “They said you had the brightest future / Writing songs on your computer” (“Hey Now What You Doing”). O baixo de Peter Hook será um irmão afastado do de Lemmy dos Motorhead, construindo riffs e melodias com o poder de um arame indestrutível. E sempre tocado abaixo da cintura. Dos sintetizadores continuam a vir sopros de gelo, que atravessam as épocas desde a cold wave até Ibiza via Nova Iorque.
Para o seu novo disco, os New Order tiveram o contributo na produção de Stuart Price (Les Rhythmes Digitales e Zoot Woman), Stephen Street (Smiths, Blur) e John Leckie (Stone Roses), para além da própria banda. Como convidada “surpresa” aparece a Scissor Sister Ana Matronic, que canta na mais romântica “Jetstream”, número para uma dança cara-a-cara em terraços junto à praia. “Waiting For The Sirens’ Call” pode-se considerar dividido em duas partes, com dois epílogos.
As quatro primeiras faixas seguem o caminho aberto por “Regret” e “Crystal”, culminando no fabuloso single “Krafty”, em que o refrão explode num “Just give me one more / Give me another night / I need one more chance / This time I’ll get it right” para ser cantado de lágrima no olho e alegria no coração onde quer que seja. “I Told You So” é surpreendente, uma actualização de “Spooky” de “Republic”, com baixo dub, oscilações electrónicas e teclados em forma de lente de ampliação.
Daqui os New Order seguem para os campos mais dançáveis de “Technique”, com destaque para as evocativas “Morning Night And Day” e “Dracula’s Castle”. Seria bom que acabasse com a bela e ressonante “Turn”, mas ainda há a mais rockeira e fraca “Working Overtime”. Com ou sem o fim perfeito, “Waiting For The Sirens’ Call” é uma celebração imperdível para 25 anos memoráveis.
Nuno Proença
(Mondo Bizarre # 22)
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