NICK CAVE & THE BAD SEEDS
A TERNURA DOS QUARENTA
Conta-se que as gravações de "Nocturama" duraram apenas uma semana, que de agora em diante Nick Cave vai passar a ser mais prolífico na edição de álbuns com os Bad Seeds. Espera-se que o melhor ainda esteja para vir e que Cave não se deixe enredar pela ternura dos quarenta, de que este “Nocturama” é um exemplo menos conseguido.
Depois de ler a biografia de Ian Johnston ("Bad Seed. A Biografia de Nick Cave"; Relógio d'Água Editores) a primeira pergunta que me veio à cabeça foi: como é que este homem chegou aos quarenta? No meio de drogas (todas e mais alguma), de um comportamento facilmente irascível e da consequente violência, Nick Cave lá foi traçando o seu caminho, primeiro nos Birthday Party e depois nos Bad Seeds, com registos memoráveis uns atrás dos outros, sempre reflexo do seu estado de alma ao longo dos anos. Quem aguentou o barco foi Mick Harvey, que sempre o acompanhou e contribuiu em muito para o estatuto que Nick Cave ostenta hoje em dia.
Como se pode ver, sou apreciador do senhor há alguns anos, mas isso não significa que ele seja intocável e que tenha sempre de dizer bem da música dele. E com este "Nocturama" pelo menos não me apetece dizer que é um disco inultrapassável. Estão lá temas que merecem sem dúvida destaque, como o maquiavélico e infindável "Baby I'm On Fire", o regresso aos Birthday Party mais festivos que é "Dead Man In My Bed", ou a deliciosa balada "He Wants You". Mas também lá estão temas que nada acrescentam à obra de Cave, como o previsível "Rock Of Gibraltar", o entediante "Still In Love", ou até o primeiro single "Bring It On", cujo vídeo é mais um desfile de «boazonas» do que de música e que parece uma mera repetição de "Fifteen Feet of Pure White Snow".
Não se pode negar que é um álbum agradável, mas é somente mais um de Nick Cave. Não consegue ser um grande disco como o anterior "No More Shall We Part", e muito menos estar ao nível dos geniais "Your Funeral My Trial" ou "Murder Ballads". Talvez porque seja um disco de altos e baixos, onde não se sente aquela intensidade a transbordar por todos os poros a que Cave nos habituou. A tudo isto acresce o título pouco conseguido que é "Nocturama". Até porque não é apropriado ao tom.
À banda foi concedido mais espaço na composição e uma participação mais activa nas gravações, que segundo Cave foram mais imediatas e espontâneas do que no passado. Contudo, só se dá realmente por esta espontaneidade nos furiosos 15 minutos do já referido "Baby I'm On Fire", onde o mundo inteiro está em chamas. Sem dúvida a anti-canção por que "Nocturama" valerá a pena ser recordado. Estamos assim perante um disco que é mais dos Bad Seeds em si do que de Nick Cave com os companheiros e amigos. Ao vivo a magia continuará com certeza a ser a mesma.
Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 14)
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