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NINA NASTASIA
PRIMAVERA DE DESTROÇOS
Imaginem a inquietação e a ansiedade dos escritores do mal: Kafka ou Dostoievsky, as texturas que retractam o isolamento e a angústia do homem. Planem na inevitabilidade melodramática de Lars Von Trier, e descerram lentamente a novel lápide sonora de Nina Nastasia. Mas o que deveríamos esperar de um álbum de uma nova-iorquina escrito na primavera de 2002?

O mundo mudou, dirão alguns. Será que mudou mesmo, replicarão tantos outros. O certo é que o turbilhão de emoções que um telhado da big apple suscita depurou a escrita de Nina Nastasia. O céu é ainda mais negro.

Em “Blackned Air”, o aclamado álbum de 2002, Nina confinava-se nas suas letras ao papel de espectadora. A acção, o tumulto, a morte, perseguem sistematicamente outros actores: um canídeo, o pai, um desconhecido. Em "Run to Ruin", a distância esbate-se. Nastasia assume o risco, habita de forma clara o universo trágico de todo o registo, em nome próprio. No trilho de " We Never Talked", faixa inicial do álbum, Nina instiga a verdade. Fabricada pelas cinzas urbanas: "We never talked, about that thing we witnessed, what sadness came". Em "You Her and Me" aprofunda a ambiguidade das relações, "The Body" é corpo de um amor obsessivo e destruidor. À medida que vamos avançando nas paisagens sonoras de Nina Nastasia entramos num labiríntico limbo onde as decisões parecem suspensas até desembarcarmos num épico clímax. Soará familiar?

Paradoxalmente, "Run to Ruin", não é um genial criador de lugar comuns, não inspira a venosa, venenosa linhagem de determinados exercícios de estilo country, onde o gene masculino é o génio da lâmpada. Temos aqui um mundo de subtilezas, de filigranas exóticas resgatadas pelo timbre notável de Nastasia. Como antes, Nina Nastasia combina guitarra acústica, com uma desafiante secção de cordas e alguns elementos folk. Do piano brotam pequenas infusões que cadenciam a crueza. Paralelamente, Jim White – dos Dirty Three – na bateria, intuitivamente balança a fórmula. Enfatizam-se lugares inesperados, crescendos subversivos, alienam-se elementos naturais da percussão. Pulsam-se "regrets".

Metaforicamente, o "storytelling" de Nina Nastasia aproxima-se da rudeza fotográfica do preto e branco, e é belo. Porém, a pujante captação dos momentos de nina conta com um mestre da objectiva sonora: Steve Albini – afamado produtor de nomes como Nirvana, Pixies ou PJ Harvey. Tal como em "Dogs" e "Blackned Air", Albini assina com mestria a depauperação de corpos estranhos, se bem que em "Run to Ruin" a agulha que pressiona o vinil aponte para um ideário brechtiano no sentido em que deixamos o princípio da mera conexão emocional e reflexiva e impedimos a fácil descodificação do objecto artístico.

Singular meia hora de inversão lógica, nas oito faixas de "Run to Ruin" abandonamos a poeira do deserto e aparcamos na poeira urbana. Aquela que nasceu de um panfleto de terror, mas ao contrário de Kafka que assumia o medo como a sua substância e a sua melhor parte, Nina Nastasia conta com o seu melhor trunfo na forma destemida como aclara o real na primeira pessoa. Hedonismo? Egoísmo? Ou simplesmente o êxtase sublimado de pequenas, grandes canções...

Nuno Oliveira
(Mondo Bizarre # 16)