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THE NOW TIME DELEGATION
SOUL POWER
Numa viagem ao som negro dos idos anos 60, Tim Kerr, Lisa Kekaula e amigos recuperam o velho e bom puro soul, e interpretam-no com a energia de uma garage band com estilo. O resultado é "Watch For Today", um excelente disco com sabor retro, mas com uma pertinente visão actual da música dos 60's, com predominância para a soul.

Tim Kerr tem nome feito no rock alternativo americano. Entre outras bandas passou pelos Poison 13, Jack 'O Fire, Lord High Fixers e ultimamente presta os seus talentos nos Monkeywrench. Lisa Kekaula é "só" a vocalista dos poderosos Bellrays. Juntamente com Alex Cuervo, Steve Adkins e Kari Luna dos Gospel Swingers está formada a banda mais cool a aparecer em 2001. Com os Bellrays, Lisa Kekaula já revisita a soul via proto-punk na variante viagem fantástica, mas nesta formação não só tem oportunidade de fazer valer a sua incrível voz em níveis decibélicos mais enérgicos, como também de mostrar que possui a versatilidade para aveludar a voz ao nível de uma cantora da Motown numa qualquer sala fumarenta. Graças a um suporte instrumental mais inclinado para uma banda de rhythm & blues, isto graças a Tim Kerr que depois de anteceder a explosão Jon Spencer na mistura blues/punk com os seus Jack 'O Fire continua a acertar, encaixando na perfeição os seus modos mais blues com a sua seis cordas e mais ainda quando sopra a harmónica. A sua produção versatiliza ainda mais os temas, dando-lhes aquele som não demasiado limpo que caracteriza os seus trabalhos.

O orgão Hammond de Kari Luna tempera as músicas com um groove evocativo do melhor de Booker T. & The M.G.'s directamente saído de uma qualquer pista de dança da década de 60. O resultado são 12 temas em que os Now Time Delegation passeiam o seu estilo, variando da soul mais standard, como por exemplo na desarmante versão para o clássico de Eddie Floyd "Raise your hand" que abre o disco, até aos Who versionados por uma qualquer banda da Stax em finais de 60 (arrasadora "Nothing but a heartache" dos Flirtations), passando por pérolas instrumentais como "Bert's apple crumble", uma versão dos The Quik. O à vontade com que fazem uma versão de "Keep on Pushin'" de Curtis Mayfield é de assinalar. É verdade que metade das faixas são versões de temas da década de 60, o que faz todo o sentido, mas os originais não degeneram nem um pouco, como por exemplo "Layin' on the ground", o potencial single, ou a belíssima "Hangin' tree", ou ainda "Bye bye", o sucesso que os Doors nunca gravaram. Retro? Revivalista?... Talvez um pouco, mas também e principalmente novo e fresco. Os Now Time Delegation, como o próprio nome indica, pertencem sem dúvida ao presente (...look to tomorrow / watch for today.) Sem pudores nem barreiras estílisticas redutoras, este é até agora o disco do ano, para amantes de soul, rock, blues, r & b ou o que quer que seja.

Rui Quintela
(Mondo Bizarre # 7)