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OUTKAST
CARA OU COROA
Será possível chamar a “Speakerboxxx/The Love Below” um duplo álbum? Dre e Big Boi lançaram álbuns a solo, mas curiosamente ao mesmo tempo e no mesmo disco, juntos como a unidade conhecida por Outkast. Pode tratar-se do primeiro passo de uma possível separação….ou talvez não.

Desde a estreia de “Superplayalisticcadillacfunkymusic”, qualquer lançamento dos Outkast tornou-se um momento de grande antecipação. “Speakerboxxx/The Love Below” não só veio para satisfazer a expectativa mas também para lançar o duo num futuro completamente incerto. Se Antwan “Big Boi” Patton e Andre “Dre 3000” Benjamin formavam um par intrínseco e inseparável, agora inovam pela demarcação com este novo álbum dividido em duas partes, cada fatia centrada num membro. Ao longo da evolução da banda, cada elemento escolheu uma rotulagem específica.

De um lado, Big Boi personificava aquele estereótipo já reconhecível do pimpão das miúdas e dos pit-bulls, com uma farda desportiva a condizer. Dre por outro lado era o extremo oposto do durão do guetto, extravagante em aparência e excêntrico em comportamento. Colheu por isso a ira de muitos críticos que o acusavam de não se comportar à altura do seu perfil rácico e, em alguns casos, de acordo com a sua masculinidade.

Mas pondo as aparências de lado, o duo partilhava uma empatia lírica e sonora em comum, que sempre convergiu no som excitante e semi-místico que os Outkast conseguiram aplicar com a ajuda das produções da Organized Noise Productions e de Antonio “LA” Reid. As críticas limitadas ao universo hip-hop rapidamente desapareceram com a ascensão do grupo ao super-estrelato com o seu quarto álbum “Stankonia”. Pode parecer difícil um grupo sónicamente imprevisível e visualmente provocante conseguir criar mais fissuras dentro do molde ortodoxo do hip-hop mas com a chegada deste álbum dual, os Outkast prometem não desiludir.

A equipa de produção, confiante, aposta neste duo para lançar mais confusão na definição desta banda que trouxe ao hip-hop sulista, o glamour berrante e o espiritualismo sexo-espacial dos anos 70, mais as excentricidades anos 80 de um artista outrora conhecido por Prince. Para piorar as coisas, as identidades separadas atribuídas a cada membro são dissimuladas aqui com uma redescoberta dos atributos de cada face do duo.

As aparências iludiram. Mesmo assim, as divisões notam-se. Big Boi continua a tradição mais dentro do “aceitável” do hip-hop enquanto Dre propõe quebrar as barreiras sonoras dessa tradição com a sua incursão pioneira e ao mesmo tempo herdeira do jazz-funk-electro da década de oitenta. Se estes álbuns significam a divisão dos dois por caminhos diferentes, não parece evidente pelo feitiço que os Outkast já lançaram nos últimos dez anos, perfeitamente separáveis e inseparáveis.

A ambição de Dre e Big Boi só terminarão quando o mundo reconhecer que está perante um novo conceito de um grupo de hip-hop, a evolução para uma nova espécie, em que a pop parece ditar o estágio final dessa metamorfose.

Vasco Rebelo
(Mondo Bizarre # 17)