Na linhagem discográfica de Paul Weller surge, agora, um álbum luminoso, impregnado de soul e de técnicas de estúdio não exploradas no período anterior a "Heliocentric", um trabalho de viragem e de regeneração criativa que data de 2000. "Illumination" é, assim, o seu sucessor natural, sendo caracterizado por opções artísticas mais ousadas.
Enquanto líder dos The Jam, Paul Weller assumiu o comando da mais influente formação britânica da era punk. Quase perto do fim da banda, a Motown e a música soul soaram bem alto no espírito de Weller, que viria a formar o projecto The Style Council em 1983. Este constituía, na realidade, um conjunto de estilos, uma vez que, com a progressão na música, começam também a assumir destaque a house music e um jazz com declinações pop. Em virtude desta condensação e sobreposição de aproximações sonoras, por volta de 1990, Paul Weller não conseguia um contrato discográfico no Reino Unido e extinguiu a banda. Contudo, os álbuns que viria a editar a solo ajudaram-no a recuperar a popularidade na Grã-Bretanha. Em 1991, estabeleceu o Paul Weller Movement e editou o tema "Into Tomorrow'" através da Freedom High Records, a sua própria etiqueta independente. Mais tarde, parte numa digressão que serviu de tubo de ensaio ao material que viria a constar do seu homónimo álbum de estreia em nome próprio, disco gravado em 1992 com o produtor Brendan Lynch. No Outono do ano seguinte, é lançado "Wild Wood", gravado com Steve Craddock, guitarrista dos Ocean Colour Scene. Este álbum chega mesmo a arrecadar o Ivor Novello Award na categoria "Outstanding Contemporary Song Collection". "Stanley Road" de '95 é tido como o trabalho mais bem sucedido de Weller desde os The Jam, que precedeu a edição de "Heavy Soul" no Verão de '97, duas composições orgânicas que denunciam a criatividade e a destreza do músico. Três anos mais tarde, "Heliocentric" é editado e, segundo o seu criador, seria o seu último trabalho de estúdio.
A profecia anunciada não se cumpriu e o tempo encarregou-se de catapultar este "Illumination", que se desvincula do seu passado mais remoto, aquele que assentou numa reaproximação à tradição da folk britânica, e projecta a música nele contida num plano de estruturas e arranjos. Nele, é a música soul que ocupa o palco principal na teatralidade lírica constante em temas como "Leafy Mysteries" e "Standing Out In The Universe". Este é um álbum que resulta do cruzamento do pendor essencialmente soul de "Wild Wood" com a propensão ensaiada em "Heliocentric" para a experimentação e uso de mais potencialidades do trabalho de estúdi o. "It's Written In The Stars" contém um sample ajustado ao clímax da canção. Nota-se em 'Spring (At Last)' uma predominância na composição de atmosferas instrumentais, que acabam por sintetizar o calor que consome o disco. "Illumination" é, enfim, um trabalho que atesta a saúde de Paul Weller que, em "A Bullet For Everyone", prova também ter sabido envelhecer na violência predadora de alguns dos seus trabalhos. A edição comercial do disco inclui um DVD com quatro pistas: versões ao vivo de "Sunflower", "You Do Something To Me" e "Standing Out In The Universe" e ainda o vídeo de "It's Written In The Stars"
Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 13)