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PJ HARVEY
E AO 7º ÁLBUM FEZ-SE ROCK
Quatro anos a experimentar ser escultora, actriz e poetisa. Quatro anos em que inundou as “Desert Sessions” de Josh Homme & friends, e deixou a sua marca indelével nos registos mais recentes de John Parish, Giant Sand, Mark Lanegan, Gordon Gano, Sparklehorse e até Marianne Faithfull. Quatro anos em digressão, que passou por uma noite inesquecível em Paredes de Coura, com um “best of” proporcionado por PJ, Mick Harvey e Rob Ellis. Quatro anos que valeram a pena esperar para assistir finalmente ao regresso a casa de uma das maiores referências do rock da actualidade.

Uma mulher sexy, doce, feroz, feminina. Uma mulher que não se sente angustiada, zangada ou estrela. Uma mulher avessa a computadores, e-mail e telemóveis. Uma mulher muito autocrítica face ao seu trabalho. Uma mulher admiradora de Neil Young, Bob Dylan, Thom Yorke, Bonnie 'Prince' Billy, Mark E. Smith, Don Van Vliet (aka o mítico Captain Beefheart). Este é um quadro que se pode pintar de PJ Harvey, sendo "Uh Huh Her" a consequência óbvia: 13 temas entre o rock, o etéreo e o calor de uma alma que muitos julgam torturada e obscura, mas que sabe ser maternalmente aconchegante. Um simples conjunto de canções, escrito em casa da avó na Inglaterra natal e, segundo a autora, sem fio condutor, sem tema subjacente, sem espaço geográfico, sem leituras biográficas, sem factos reais. Com devaneios e incertezas, ideias e caminhos, notas e desabafos, como se pode ler e ver no livrete-diário do CD: "all that matters is my voice and my story; english accent goddam it!; what do you know about love?; use what people have done; if struggling with a song, drop out the thing you like the most; me play all; turned up loud but playing softly; not subtle but brutal; scare myself?". Pura ficção rock.

PJ apresenta o álbum – em que tocou e produziu tudo, só com a ajuda de Rob Ellis na bateria e percussão, e de Head nas gravações e misturas – como uma paleta de onde cada qual tirará o que quiser. Mas não deixa de caracterizá-lo como mais difícil que a maioria dos anteriores, e nesse sentido na mesma linha de "Is This Desire", curiosamente o preferido da autora e provavelmente o mais desafiante.

Com base nesta premissa, façamos então uma curta viagem ao vasto universo harveyano que "Uh Huh Her" tão bem representa. O início é simplesmente PJ Harvey. "The Life And Death Of Mr. Badmouth" tem aquele efeito hipnotizador e aquela cadência que a cantora tem o hábito de provocar. E "Shame" tem aquele efeito embalador, que o verso "shame is the shadow of love", numa voz adocicada, tão bem exprime. De repente a estranheza instala-se (e vai crescendo até ao fim) com "Who The Fuck", que transborda toda a agressividade inerente ao título, numa das canções mais pesadas da discografia de Harvey. "Pocket Knife" é um tema fabulesco, inspirado em canções folk da Rússia. "The Letter" é um estrondo que tem tudo para ser um potencial êxito. "The Slow Drug" é a droga que todos deviam tomar. Vicia, mas só faz é bem. Segue-se "No Child Of Mine", onde a relação da songwriter com a sua viola transborda em menos de um minuto; e "Cat On The Wall", mais uma amostra competente de rock'n'roll. E a última, porque o resto é uma PJ mais experimental e intimista. Oiça-se a magia de "You Come Through" ou a declaração amorosa de "It's You". "The End" não o fim do disco, mas tem a particularidade de ser um curto instrumental dedicado ao polémico Vincent Gallo. E ainda bem que não é o fim, porque momentos como o maravilhoso "The Desperate Kingdom Of Love" só mesmo no céu. Percebe-se aqui porque é que PJ Harvey é fã de Bonnie 'Prince' Billy. O fim chega sim com "The Darker Days Of Me & Him". Faz-se luz com sabor a praia e ao som de gaivotas. E ouve-se outra vez, porque soube a pouco. Para terminar (agora sim), a conclusão. No todo não há de facto em "Uh Huh Her" grandes surpresas ou novidades, mas há muito querer, poder e saber fazer. Não há propriamente um princípio, meio e fim, mas mesmo assim a coerência é avassaladora. Como o é o rock agridoce de PJ Harvey. Afirma ela: "I'm not looking for continuity of sound". Pergunta ela: "too normal? too PJ?". Respondemos nós: "just welcome back", não só aos discos em nome próprio, como também aos palcos portugueses, que vão ter o privilégio de rever PJ ao vivo, desta vez no palco principal de Vilar de Mouros, já no próximo 18 de Julho e imediatamente antes do guru Bob Dylan. Lá estaremos.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 19)