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PLEASURE FOREVER
CANCIONEIRO DIONISÍACO
No seu homónimo trabalho de estreia, os Pleasure Forever, naturais de San Francisco, EUA, presidem ao Concílio dos Deuses de toda a depravação. Publicado pela (in)suspeita Sub Pop, o álbum é também um ensaio acidulado sobre o obscurantismo.

Militantes nas lides musicais desde 1995, então sob a designação de The VSS e dois anos mais tarde de Slaves, Andrew Rothbard, Josh Hughes e David Clifford formam um dos colectivos mais interessantes da actualidade. "Nervous Circuits" e "The Devil's Pleasures", respectivamente da primeira e segunda incarnações dos Pleasure Forever, têm agora sucessor. Esta imponente fábrica de sons é gerida por uma linguagem escorreita feita de ambientes soturnos, que a comunidade crítica coloca na prateleira do goth-rock. Na realidade, os Pleasure Forever situam-se ao nível da abordagem conceptual de Nick Cave, mas o seu painel de influências alarga-se para incluir nomes como Bauhaus, the Doors e Swans.

Retirado a ferros da satisfação dos prazeres e desejos que percorrem o nosso imaginário, o álbum afirma-se como um hino à transcendência e a celebração despreocupada do ímpeto. O tom profético de 'Meet Me in Eternity' e a tensão arrepiante de 'You and I Were Meant to Drown' precipitam-se na torrente de oferendas (em formato canção) que adornam o altar de Diónisos, deus grego do excesso. A luxúria transgressora e pouco ortodoxa deste trio pode ainda ser aferida através de 'Stay Precious'; 'Any Port in a Storm', por seu turno, ilustra um profundo sentimento de urgência, cujos contornos, transferidos para a música, assumem recortes catárticos. No plano estritamente estético, o disco funciona como uma colectânea de cânticos funerários, cuja malha sonora é tecida por teclados pungentes, batidas secas e riffs arrojados. A atmosfera cavernosa é reforçada pela voz de Andrew, misto de tribalismo e textura, e que parece resgatada da cena hardcore da costa ocidental dos Estados Unidos no início dos 90. No lodaçal tosco das edições de orientação gótica que hoje em dia nos chegam às mãos, escutar os Pleasure Forever é reabilitar o género e elevar as entranhas ao estatuto do espírito. Como se a pulsação vital ocorresse apenas abaixo da cintura. Como se o sangue não irrigasse senão a zona de fruição musical. Por estarem na demanda do Santo Graal do prazer, têm em Georges Bataille um companheiro de viagem. Por isso o citam naquela que poderia ser a frase-síntese do álbum: "O prazer está tão próximo da ruína que nos referimos ao momento do clímax como uma pequena morte." Para uma formação que parece estar na senda do ouro ("All the things I've lost in search of gold"), este disco coloca os Pleasure Forever na lista dos melhores garimpeiros da actual realidade musical.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 9)