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PRIMAL SCREAM
Viciados Em Pop
Com o novo "Evil Heat" a banda de Bobby Gillespie regressa do período de obscuridade que passou com "Xtrmntr" para uma nova ribalta na música britânica. A fórmula é a mesma: rock garagista, electrónica, psicadelismo e uma atitude de colagem pop. Talvez desta sejam melhor entendidos.

Os Primal Scream são já uma daquelas instituições da música britânica que acaba por sê-lo da forma menos previsível possível. Um colectivo algo destrambelhado de resistentes que vivem intensamente as suas fantasias rock'n'rolescas ao mesmo tempo que vão funcionando numa espécie de piloto automático. Nos Primal Scream não parece haver uma direcção, um desígnio específico para o que a banda pretende alcançar, limitando-se o colectivo a ir respondendo aos estímulo dos acontecimentos do momento e às modas musicais correspondentes. Neste caso, tal atitude até nem é desprovida de sentido e interesse já que os Screams acabam por responder às correntes estéticas do momento e aos diversos acontecimentos mundanos com a sua própria visão artística, o que acaba por corresponder a uma autêntica atitude pop. Começando por ser pura e simplesmente uma banda de fetiches rock'n'roll, inicialmente fixada em glórias do passado como os Byrds (em "Sonic Flower Groove") e mais tarde os MC5, Stooges ou Rolling Stones (em "Primal Scream"), o grupo acabou por ganhar importância com "Screamadelica", o álbum que os colocou no centro do cruzamento rock/dança dos finais da década de oitenta. Desde então, e apesar do retrocesso de "Give Out But Don't Give Up", têm conseguido ganhar uma personalidade e um lugar para si próprios em particular com a trilogia de álbuns que começou com "Vanishing Point", passou pelo incompreendido"Xtrmntr", o último álbum para a Creation, em 2000, e que chega agora a "Evil Heat". Esta face mais recente da banda, que corresponde também à entrada de Mani, o ex-baixista dos entretanto desaparecidos Stone Roses, passa por um agravamento da promiscuidade entre electrónica e rock'n'roll, fusão a frio que sob uma perspectiva mais ou menos psicadélica se transformou no work in progress da banda. Assim, e com a ajuda dos Chemical Brothers ou do antigo My Bloody Valentine, Kevin Shields, já não espanta muito ouvi-los fazer uma cover garagista de "Motörhead" logo a seguir a uma desbunda de electro ou uma digressão psico-dub-espacial inspirada em Sun Ra.

No mais recente "Evil Heat" reafirma-se esta personalidade esquizofrénica feita de retalhos da música pop das últimas décadas, como se a cabeça de Bobby Gillespie estivesse mergulhada num contínuo zapping entre canais televisivos dedicados a épocas diferentes. Há o fantástico single electro "Miss Lucifer" que só peca pela curta duração, ou o rock cru de "Sick city"; o mantra psicadélico do tema de abertura "Deep hit of the morning sun" e a digressão electrónica instrumental de "Autobahn 66"; a versão do clássico "Some Velvet Morning" com Kate Moss, e ainda Andy Weatherhall, Giorgio Moroder, Stooges e tudo o mais que se queira meter pelo meio. À medida da música, Gillespie faz das suas canções uma amálgama de referências à pop (repare-se nos títulos das canções) colando frases e palavras num estilo de associação muito arty que acaba por servir bem o todo. Na verdade esta é uma banda que faz do consumo compulsivo de arte pop uma das suas principais razões de existência e que por esta altura já se tornou mestre nessa prática. "Evil Heat" não é mais uma vez um álbum para fazer história. É um álbum que vive da história e que precisamente por isso é um óptimo pedaço de entretenimento.

Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 12)