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MÚSICA PARA ÓCULOS DE SOL

Sob o signo do psicadelismo e da pop de sorriso pateta sob um sol cor de laranja, a Mondo Bizarre estende a bandeja com as melhores propostas da temporada. Das aspirações de dominação total de Sleepy Jackson à selecção de sub-21 dos Coral vai um pequeno passo cujo percurso vale a pena conhecer.

Sleepy Jackson, o irrequieto

Luke Steele é daqueles que prefere servir-se de um pseudónimo a dar a conhecer o seu nome de baptismo. “Lovers”, o primeiro disco dos Sleepy Jackson, não está muito distante do imaginário de caleidoscópio pop de Badly Drawn Boy mas aposta num registo mais multifacetado, ao abraçar em treze faixas grande parte da herança musical dos últimos quarenta anos. E fá-lo sem pruridos: começa com um excelente pastiche de George Harrison, “Good Dancers” – e a ele voltará com a guitarra eléctrica de “Come To This”; dá um salto aos Pavement via Velvet Underground; pisca o olho ao plasticismo dos Echo & The Bunnymen de meados da década de 80, em “Rain Falls For Wind”; evolui dos Felt aos Denim em “Tell The Girls That I’m Not Hanging Out” (que podia ser de outro Luke, o Haines, em registo Black Box Recorder); toca de leve o country-rock em “Old Dirt Farmer” e pede emprestado aos Shins o tema de encerramento, “Mourning Rain”. Mas ao deambular de forma tão irrequieta por tantas (e reconhecíveis) estruturas musicais, Steele acaba por descaracterizar um disco que podia ser um tiro em cheio se não caísse na tentação de fazer de cada tema uma obra-prima.

The Tyde, os cristalinos

Menos novatos nestas andanças são os Tyde, a tal banda na qual militam três elementos dos solarengos Beachwood Sparks. Não menos luminosos, estes nativos da Califórnia apresentam, ao segundo disco, o seu documento mais sólido, capaz de ombrear com os melhores do ramo. “A Loner”, o tema de abertura, é um fabuloso tema country-pop que poderia ser dos Belle & Sebastian de “The Boy With The Arab Strap” não fosse vocalizado por Dave Rademaker, uma espécie de Ian McCulloch arraçado de – outra vez – Lawrence Hayward. Cristalino com a melhor água de Long Beach ou Malibu, “Twice” apresenta temas impolutos de gestação imaculada como “Henry VII” ou “Go Ask Your Dad” – este, um autêntico monumento ao veraneio. Curiosamente, e tal como acontece com Sleepy Jackson, a linhagem destas músicas bebe indisfarçavelmente nos anos oitenta britânicos, dos já referidos Felt ao melhor Lloyd Cole, para além da óbvia herança country dos Byrds. Material de primeira divisão.

Outrageous Cherry, os suculentos

Quando se começa um álbum com o portento de psicadelismo que é “Girl, You Have Magic Inside You”, a fasquia é colocada bem alto. Sinestesia de eco, “reverb” e “phasing”, o primeiro tema de “Supernatural Equinox” é uma injecção de sensações apontadas ao cérebro. As restantes doze canções do sexto álbum deste colectivo de Detroit vão beber ao mesmo imaginário que levaram os Jesus Mary Chain a pegar em guitarras: melodias de rádio AM produzidas por Phil Spector. O “wall of sound”, como já acontecera com o excelentíssimo “Out There In The Dark” (1999), retira qualquer aspecto adocicado aos temas mas salienta as propriedades nutritivas de melodias irrecusáveis (porque aparentemente intemporais) como “A Song For Someone Sometimes”, “Young and Miserable” e “If You Want Me”. Pejado de temas suculentos capazes de devolver qualidade de vida ao suicida mais determinado, “Supernatural Equinoxe” é um enormíssimo disco marcado com aquela desejada intemporalidade que muitos confundem erradamente com nostalgia.

The Thrills, os expatriados

Se muitas das bandas americanas do pacote psicadélico (novamente a pandilha Elephant 6) acabam por soar vagamente britânicas ou devedoras do que, nos idos de sessenta e muitos, outros com óculos coloridos e umas tablas indianas fizeram na “old britannia”, os irlandeses Thrills parecem saidinhos do “coutryside” californiano e as próprias referências líricas nos onze temas de “So Much For The City” não enganam. Como se tivessem sido expatriados para os Estados Unidos, depois de provada a sua manifesta incapacidade de produzir “música britânica”. O facto é que o melhor que pôde acontecer aos Thrills foi “esquecer” deliberadamente a proveniência e atirar-se de corpo e alma a canções maiores do que a vida e plenas de melancolia agridoce como “Big Sur” (parecerá exagero mas será, porventura, uma das 500 melhores canções alguma vez escritas), “One Horse Town” (monumento ao country-rock dos Byrds aos Beachwood Sparks) ou a vibrante “Say It Ain’t So”. Um álbum que dá vontade de mergulhar no mar, pilhar uns óculos de sol e comprar uma Super 8.

The Coral, os infantes

Criminosamente jovens, os britânicos Coral são o exemplo máximo de produto de um país com cultura pop/rock. Mal saídos da idade adolescente, este sexteto de Liverpool é, da mesma forma que Sleepy Jackson, um coquetel interminável de influências (citem-se os nomes Love, Beach Boys, Syd Barrett, Madness, Frank Zappa, Nirvana – os ingleses -, e Kaleidoscope para enquadramento). A diferença é que enquanto Sleepy Jackson não tem utensílios de cozinha, os Coral parecem possuir uma moderna plataforma de trituração e – importante! - não deitam os restos fora. Músicas como “Pass It On” e “Don’t Think You’re The First” fazem justiça às pérolas de incalculável valor do primeiro álbum: a primeira podia perfeitamente ter saído da pena de Gram Parsons; a segunda apela deliciosamente ao acervo “Nuggets”. O talento não se fica, porém, pelos dois singles editados até à data já que a temperatura folk de “Leizah” e a inusitada mistura surf/Small Faces de “Secret Kiss” não pode deixar indiferente o mais devoto amante da tecelagem pop. Mais cedo ou mais tarde todos os caminhos darão aos Coral.

Luís Guerra
(Mondo Bizarre # 16)