QUEENS OF THE STONE AGE
ERRO TÁCTICO
Os Queens Of The Stone Age desagregaram-se e Josh Homme assumiu definitivamente o papel de condutor. “Lullabies To Paralize” é uma “bola atirada para a frente”, por uma equipa reduzida que não pretende repetir-se. Talvez por isso mesmo os resultados não sejam bem os mesmos…
O dilema é já velho e existe desde que a pop entrou em definitivo na era da mediatização especializada: para um projecto musical ser reconhecido com personalidade própria, é preciso definir “um som” – conceito abstracto que invoca um conjunto de características e tiques inerentes aos músicos que o compõem e que se repetem na sua produção regular. Por outro lado, a inteligentzia musical e mesmo algum público, exige que esse “som” seja renovado regularmente, que é como quem diz, de álbum para álbum, sob pena de defraudar as expectativas entretanto criadas, o que se torna numa espécie de paradoxo de alta exigência para os músicos. É como quem diz: preso por ter cão e preso por não o ter.
Ora, após um período de afirmação e aperfeiçoamento constante que passou pelos álbuns “Queens Of The Stone Age” (1998), “Rated R” (2000) e culminou em “Songs For The Deaf” (2002), os Queens Of The Stone Age emergiram do underground stoner e impuseram-se em definitivo ao mainstream, constituindo-se numa das forças mais criativas e originais do rock dos últimos anos. Após este período de definição e depois de atirados para os olhares do grande público, “exigia-se”, portanto, uma redefinição da sua sonoridade que mantivesse o mesmo nível de criatividade e eficácia demonstrados anteriormente.
Acontece que a fasquia estava demasiado alta, sendo irrepetível o momento de graça acontecido para a gravação de “Songs For The Deaf”, onde se juntou um “dream team” de músicos altamente criativos, onde além de Josh Homme, o cabecilha dos Queens, pontuavam o seu acólito de longa data, Nick Oliveri, o ex-Screaming Trees, Mark Lanegan, e ainda Dave Grohl, no papel do super-baterista. O pior é que o tal sucesso monumental teve também uma consequência mais ou menos inesperada, já que após um ritmo de trabalho desgastante que incluiu digressões em 2003 e 2004, (e para Homme ainda a edição dos Eagles Of Death Metal e a gravação das “Desert Sessions” 9 e 10), se desagregou o núcleo central do colectivo, tendo Oliveri e Lanegan, abandonado o barco. Homme teve de apanhar os cacos, assumindo de uma vez por todas o papel de voz e figura central.
Perdeu-se, portanto, o excepcional apanhado de talentos que fez dos Queens Of The Stone Age uma superbanda de múltiplas vertentes – da mais agressiva representada por Oliveri, à mais melancólica com o cunho de Lanegan –, e ainda se impunha para Josh Homme uma ultrapassagem dos resultados anteriores. Uma tarefa hercúlea e demasiado injusta para quem quer que seja. O que ficou, a enorme criatividade do ex-guitarrista dos Kyuss, ajudado por acólitos já filiados – o guitarrista/teclista Troy Van Leeuwen, o baterista Joey Castillo e as fugazes aparições de Lanegan, que surge agora à laia de convidado –, acaba inevitavelmente por soar a uma versão um tanto ou quanto empobrecida do que já existira antes.
Porque, a verdade, é que não existe no novo “Lullabies To Paralize” a variedade de registos dos excelentes “Rated R” ou “Songs For The Deaf” – em grande parte conferida pelas diferentes prestações vocais neles presentes –, nem a consistência qualitativa das canções desses álbuns. Esta é uma gravação que arranca e se desenvolve com nervo em “Medication”, “Everybody Knows That You’re Insane”, “In My Head” ou “Little Sister”, mas depois se prolonga demasiado, descendo a fasquia daquilo que lhes era habitual. Talvez porque na última meia dúzia de títulos (o conjunto são 14, acrescentados de faixas bónus nalgumas versões) Homme dê rédea solta a um formato supostamente mais melancólico e/ou livre em ruminações que se aproximam muitas vezes das jams erráticas que é possível encontrar nalgumas “Desert Sessions”. Há, portanto, uma tentativa de explorar novas vertentes, mas nem sempre com bons resultados.
Ainda assim, este é um excepcional álbum de rock elaborado por músicos excepcionais. Um registo que se vai agarrando ao bichinho do ouvido – primeiro pelo “groove” desengonçado e tenso, tão característico dos Queens, depois por óptimas canções como “In My Head”, “Little Sister” ou “Medication” –, e que se não se esticasse tanto poderia equiparar-se ao melhor que já fizeram. O mal é que após a desintegração, Josh Homme deveria ter jogado melhor com os trunfos que lhe restavam, evitando o bluff, e pondo na mesa cartadas mais certeiras, mesmo que de menor alcance. Isto é, um álbum mais curto e eficaz. Um erro táctico que esperemos não os atire para fora de jogo…
Jorge Dias
(Mondo Bizarre # 22)
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