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RAINDOGS
Lirismo Boémio
“Life After Vegas” é a catedral sonora erigida a partir dos retratos nocturnos de uma existência íngreme. A lírica remissiva que este disco sustenta e a planície melódica que o atravessa constituem as iluminuras do mais consistente registo dos Raindogs. Até à data e depois de Vegas. Ainda com Chris Eckman na produção.

No princípio, era a desordem, o caos. Depois, o violino criou a trama para a composição de sinfonias celestes e melodias fabricadas. Interessa esclarecer que este instrumento não é, na maior parte dos casos, senão um bom adoçante da música oca que se produz. Os Raindogs são um belo exemplo de como o violino pode continuar a ser a espinha dorsal de qualquer tecido sonoro sem retirar a relevância que a voz e demais instrumentos congregam. Data de 1999 o homónimo EP de estreia. Objecto de inusitada beleza para um primeiro trabalho, o disco forneceu as premissas para um futuro que ameaçava conjecturar notas dissonantes face ao estancado universo da pop nacional. Ainda nesse ano, “From Today” vem confirmar essa propensão para retalhos sónicos harmoniosos.

Precedido do álbum ao vivo “Memories of a Portable Dat”, “Life After Vegas” procede à perfuração do mais íntimo do ser em contorções dilaceradas de refinada melancolia. Nos meandros do primeiro registo com uma outra voz - mais limpa, suave e esteticamente mais densa -, celebra-se a comunhão de almas num limbo terreno e emocional (‘Rattlesnakes’). E rastejar é o que resta a todos quantos temem a ascensão à liberdade e desejam permanecer agrilhoados ao obscurantismo da sua condição (“the fear of freedom rose up from your inner need of being slaved”). Em ‘Sierra Madre’, as palavras são ditas a um ritmo sincopado, palmilhado por uma textura sonora de orientação desgarrada e em consonância com o esvaziamento relacional presente em “she was gone/outside, only a landscape of cactus and rocks”. Paisagens recobertas dos elementos primordiais, não humanizados - porque só as emoções se tornam pertença nossa. Quase tudo o resto resiste numa subsistência estóica, imperturbável. Apenas a neblina vem carregada de uma referencialidade cruzada, transportando os sinais do tempo numa amálgama disforme que reúne entidades sobrenaturais e figuras mitológicas. ‘Dreamwhirl’ é disso paradigma incontornável - “in the garden of Allah”, a rivalizar com o Jardim do Éden da literatura bíblica a ocidente, e, mais adiante, “Icarus is flying above a forest convention”. Mas o disco pactua também com as forças do Mal numa assumida cumplicidade com o Diabo (“and his heart, nailed to the pentagram”) e mostra o fervilhar dos fluidos num corpo que acalenta o irrevogável Fado - ‘Hand of Fate’. Por vezes, o estrado é ainda cadenciado e lento e já se percepciona a eclosão de sulcos bélicos e florescem na mente imagens dantescas quando, na verdade, a guerra é apenas dos sentidos. ‘Corazón’ é a deterioração de uma voz que, não chegando aos píncaros guturais, pontua na aridez que proporciona a um tema introspectivo. Em ‘Hotel Sickness’, há a utilização de referências espácio-temporais de uma América mítica (ou mitificada) - “and all the Seattle whizz kids/grunge their way to fit in” -, consumida por falácias auto-infligidas.

Helder Gomes
(Mondo Bizarre # 11)