RANCID
LOBOS COM CONSCIÊNCIA
Para alguns, os Rancid são apenas a banda que quer ser mais Clash do que os Clash, para muitos são os fiéis representantes do espírito punk. "Rancid", o disco homónimo, é um regresso ao som mais crú e sem consessões da banda californiana.
No final dos anos 80, Tim Armstrong e Matt Freeman foram dois dos obreiros que fizeram história com os Operation Ivy, uma das bandas mais influentes do movimento ska americano. Daí até à formação dos Rancid foi um passo, já que a necessidade de Tim em mostrar que ainda estava vivo, após o final dos Operation Ivy, era enorme.
Antes de gravarem o álbum de estreia, a formação é completada com a entrada de Lars Frederiksen, um renegado vindo das fileiras dos UK Subs, que se revelaria o parceiro ideal para dividir as vozes com Tim. Com o segundo álbum, "Let's Go", a capacidade que a banda tem em escrever canções terrivelmente acessíveis, que tanto tocam no fundo do coração dos fãs como deliciam o ouvinte mais desatento, leva-os a serem assediados pelas multinacionais, na esperança de encontrarem outros Green Day. Pouco preocupados com a fama e com o sucesso, os Rancid decidem continuar na Epitaph, que lhes dá toda a liberdade que necessitam, chegando ao ponto de permir que Tim Armstrong faça a sua estreia como realizador do video do tema "Nihilism". O passo seguinte chama-se "...And Out Come The Wolves".
O disco traz de volta as memórias dos Clash, mais do que evidentes em temas como "Ruby Soho" ou "Time Bomb", sendo a dupla de vocalistas bastas vezes comparada a Joe Strummer e Mick Jones. Por esta altura a banda explodia em todas as frentes, com digressões constantes por todo o mundo, sempre ao lado dos "grandes". Esta correria acabaria por levar a banda à exaustão.
Depois de um período de férias em que cada elemento escolheu um destino diferente, surge "Life Won't Wait", uma salada russa de influências que sempre marcaram a banda desde o início mas que aqui se revelam em toda a sua força, ajudando à diversidade do álbum. Por esta altura Tim Armstrong já brinca às editoras com a sua Hellcat Records, destinada a apoiar bandas novas, e desenvolve a sua faceta de produtor. Tudo isto para fugir à rotina da banda, que teima em não abrandar a curva ascendente.
E se "Life Won't Wait" era uma amalgama de influências, "Rancid" é "apenas" um disco punk. É o manifesto de uma banda inconformada com a estagnação da chamada música pesada. Um murro no estômago daqueles que afirmam que o punk morreu há muitos anos. Um raio que consome 22 temas em pouco mais que 38 minutos. "Rancid" é "apenas" um dos melhores discos punk dos últimos anos. Tudo o resto é conversa.
Pedro Esteves
(Mondo Bizarre # 4)
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