RESIDENTS
O OLHO NA PIRÂMIDE
"Once upon a time I played an electric guitar
and they said I was a rock'n'roll star.
Now nobody calls me on the telephone,
so I sit and watch my TV all the alone.
Maybe if I put a bullet in my brain
They'll remember me like Kurt Cobain.
And all the parasites at MTV
Would wipe their eyes and act as they knew me.
But I wouldn't be a hero I would be dead
Just a corpse beside a note that read.
If you like to pretend you'll never get old
You´ve got what it takes to rock'n'roll"
The Residents, The Aging Musician
Foi com um AHH! de surpresa que, num raid a Londres com a missão "ataque à Forbidden Planet", ao folhear a indispensável Time Out, os encontrei no cartaz do MELTDOWN 2001, o mais popular festival do South Bank londrino:
The Residents 9 de Junho
Queen Elizabeth Hall 8p.m £ 20
Os Residents um dos mais autênticos produtos americanos, desde 1970 dominam e destroiem todos os géneros musicais da no-wave ao electro, fazendo o pino às novas tecnologias e virando do avesso a sátira. Numa rara presença por cá, apresentam Icky Flix, uma viagem retrospectiva ao seu mundo deliciosamente doente.
Adicionalmente era referido o director artístico nomeado para a organização do evento 2001 pelo Royal Festival Hall*: Mr. Robert Wyatt. O círculo estava fechado.
Encontrar bilhetes foi difícil e recompensador. E eis-me a presenciar Icky Flix -cortesia de Mr. Blue, um senhor de smoking e cartola, enorme olho no lugar da cabeça que entrou em palco e accionou o DVD através de um controlo remoto incandescente. Os outros Residents já em palco vestiam fatos espaciais negros e capacetes com luzes de mineiro. O Resident Cantor, há sempre um! mas, qual deles?, usava smoking branco e um capacete alienígena. Iniciu-se assim uma das mais desconcertantes performances de polimedia (hi Roberto!) a que já assisti - 90 minutos de pura alucinação audio visual, Os Residents têm uma longa história e uma não menos extensa árvore genealógica, da qual apenas se identificam os vários músicos e artistas que, ao longo dos anos se têm cruzado com estes homenzinhos dos quais apenas conhecemos um olho e o impecável "smoking". Esse olho, que do ponto de vista biográfico não conseguimos saber se é o direito ou o esquerdo, prima por manter o rigor e formalismo do dono nunca dispensando a cartola.
Trinta anos é uma vida e para quem tem acompanhado as divagações diletantes e dilacerantes dos Residents. A tentação de dizer que os conhecemos é grande, mas nada mais falso. Na festa de apresentação de Icky Flix em Los Angeles, foi anunciado aos convidados a possibilidade "Meet a Resident" - promessa cumprida. Um homem de smoking, mas sem a cabeça de olho, esteve no meio do público em agradável cavaqueira e distribuindo autógrafos. Para os ingénuos, agraciados com 45 segundos de atenção e o rabisco da praxe, será sem dúvida motivo de gabarolice nos próximos anos. A realidade é que a probabilidade de esse homem ser de facto um dos elementos dos Residents é diminuta. Mas será que isso importa? Não. Os Residents são icones de um culto onde o inconformismo e a inteligência andam de mãos dadas - o seu anonimato, a prova que qualquer um poderá ser mais um REsIdente da comunidade desde que tenha um olho crítico e rigorosamente informado.
O material dos primeiros 12 anos de carreira mantém, ainda hoje, uma actualidade impressionante do ponto de vista visual e audio, mas cada novo entregável dos Residents é sem dúvida algo que não convém passar em claro. Tudo começou algures na Califórnia, em San Mateo. Fascinados por música e mais ainda por som, não sendo músicos, o único aliado foi o gravador e mais tarde a tecnologia, talvez por isso sejam considerados como os pioneiros do "estúdio em casa". A experimentação tornou-se a ferramenta ideal, até que em 1972 se sentiram aptos a mostrar o que faziam ao mundo, a data escolhida foi o Natal. E eis o cartãozinho de natividade mais popular na comunidade underground - o SANTA DOG. Esta atitude associada a uma enorme colecção de recortes de jornal levou-os a criar uma nova forma de arte, isto algures em 1976, o Video Musical.
A biografia dos Residents, a partir daí, constroi-se a partir da profícua produção de verdadeiros panfletos audio/visuais, não se regendo pelos parâmetros que Kodwo Eshung define como os clássicos do rock'n'roll: geografia (onde), personalidade (em especial a infância/adolescência díficil), quando (datas precisas), sexo (masculino, feminino, indefinido) e imagem (aspecto físico e atitude). Dos Residents, antecipando a nova geração de músicos electrónicos, não se conhece a personalidade, o sexo, nem a imagem mas numa cultura tão saturada de gente famosa, a anti-fama e o anonimato tornou-se uma arma estratégica para a preservação da sanidade e garante de longevidade. E para que a fogueira das vaidades fique sem oxigénio, têm editora própria a Ralph Records e como porta-voz a Cryptic Corporation, onde os nomes de Hardy Fox e Holmer Flynn aparecem, num estatuto de managers, mas onde a dúvida persiste: serão eles os Residents?
Icky Flix, a tournée e o DVD, transportam em si uma visita guiada ao mundo dos Residents, adequadamente mantendo as versões originais e dando novas versões como alternativa. Aí não poderiam faltar, e não faltam as referências obrigatórias à distorção de "The Third Reich 'n Roll" e à versão vídeo do "Commercial Album" onde 40 canções somam 40 minutos - "One Minute Movies" ambos presentes na colecção permanente do Museum of Modern Art, em Nova Iorque.
Só à guisa de nota para que por cá se veja que o eclectismo é possível, o MELTDOWN teve como directores artísticos nos últimos anos: George Benjamim (93), Loius Andriesson (94), Magnus Lindberg (95), Elvis Costello (96), Laurie Anderson (97), John Peel (98), Nick Cave (99) e Scott Walker em 2000.
Ana Cristina Ferrão
(Mondo Bizarre # 8)
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