ROCKET FROM THE TOMBS & ELECTRIC EELS
Duas Histórias Esquecidas
Os Rocket From The Tombs e os Electric Eels não são notas de rodapé na narrativa do rock. São antes personagens principais de histórias esquecidas. Ou fantasmas à espera que alguém os invoque. Um par de compilações recentes, “The Day The Earth Met The Rockets From The Tombs” e “The Eyeball Of Hell”, vêm documentar as obras destes dois grupos e possibilitar aos mais curiosos um reencontro com o tempo.
“Ain´t it fun when you know that you are gonna die young…”, cantava, num misto de ironia e abandono Peter Laughner, em meados dos anos 70. Mal sabia ele que aos 24 anos acabaria por tornar, tragicamente, em realidade a ficção dessa canção. Na verdade” Ain´t It Fun” é um dos temas mais simbólicos da história do rock. Há nela algo de jubilatório e, ao mesmo tempo, de triste pois condensa num punhado de minutos a vida dos mitos. Estranhamente, para muitos, a sua origem permanece desconhecida. Recuemos então algumas décadas atrás e pousemos em Cleveland, cidade industrial do leste norte-americano. Foi aqui, no ano de 1974, que um crítico musical conhecido como Crocus Behemoth, (de seu verdadeiro nome David Thomas) fundou, na companhia de um grupo de amigos, um grupo chamado Rocket From The Tombs. O objectivo inicial não era mais do que tocar versões ao vivo, situação que se prolongaria até à entrada de Peter Laughner, um guitarrista com enorme talento para compor canções e que tinha em Lou Reed uma referência central. Ambos adeptos dos Stooges, dos Velvets, dos Roxy Music e dos MC5, Thomas e Laughner encontrariam, mais tarde, no baixista Craig Bell. uma espécie de alma gémea. Aos três juntar-se-iam dois fãs de hard-rock: o guitarrista Gene O’ Connor (ou Cheetah Chrome) e o baterista Jonh Madansky.
Daí para frente este grupo de cinco músicos criaria uma música que apontava para o que estaria para vir. Por outras palavras a sua obra já era punk, grunge ou alternative rock muitos antes destes termos emergiram à superfície das páginas dos jornais. Basta escutar a compilação/reedição da Glitterhouse “The Day The Earth Met The Rocket From The Tombs” e facilmente entramos no tempo da história. “What Love Is”, por exemplo, conjuga a visceralidade dos Stooges com aquela velocidade simpática que tão bem caracterizava os Kinks. “Amphetamine” é ternamente avassalador. Uma balada proto-slacker sobre o uso de drogas que, sonoramente, precede por quase duas décadas o que grupos como os Hüsker Dü e os Dinosaur Jr viriam a fazer.
Mas os temas que acabariam por influenciar quase de forma subliminar as explosões que marcariam o ano de 77 são “Final Solution” e “30 Seconds Over Tokyo”, ambas escritas por David Thomas. Aqui o que impera, não será tanto uma angústia pós-juvenil, como aquela que caracterizava os Stooges mas um sentimento apocalíptico feito de fobias e medos. Não por acaso estas duas canções surgem atravessadas por um certo experimentalismo que evoca cenários pós-industriais. Diz-se, se calhar com propriedade, que ambas terão inspirado o lado mais negro do punk inglês. Comparem-nas, por exemplo, com a fase mais rude dos Joy Division. Finalmente, “Ain´t It Fun”, de Peter Laughner é uma pequena fábula sobre as misérias e as tristezas do rock. Com a morte do seu autor pouco sabemos sobre o seu verdadeiro significado, mas a sua voz desamparada dá-nos algumas pistas.
Os Rocket From The Tombs terminariam em 1975 pouco tempo depois de fazerem a primeira parte dos então semi-desconhecidos Television. Divisões internas provocadas pelas entradas de novos membros, gostos musicais divergentes e inseguranças pessoais ditariam o fim do grupo. Das suas cinzas emergiram os Dead Boys, formados por Stiv Bators, Cheetah Chrome e John Madansky enquanto David Thomas fundaria os Pere Ubu (cujos dois primeiros singles eram nem mais, nem menos, “Final Solution” e “30 Seconds Over Tokyo”). Peter Laughner depois de integrar a primeira incarnação destes últimos seguiria um caminho próprio antes de falecer em 1977. Ironicamente “Ain´t It Fun” acabaria por ser celebrizado já nos anos 90 por uma banda de glam-rock com tiques FM: os Guns And Roses. Mas este é um pormenor dispensável. Porque os verdadeiros intérpretes da história foram de facto os Rocket From The Tombs. O véu está levantado, basta ouvir!
Cleveland porém, e apesar de menos mediática que Nova Iorque e Detroit, foi o berço de outros grupos igualmente pioneiros. Um dos mais marcantes terá sido os Electric Eels que praticava um free garage rock absurdamente niilista. Formados por Dave E. McManus, Jonh Morton, Brian Mcmahon e Nick Knox (que se juntaria posteriormente aos Cramps) tornaram-se figuras fundamentais da cena pré-punk. A sua música apoiava-se, essencialmente, no desbragamento e na agitação, recusando os ornamentos do glam-rock, dispensando qualquer militância política e rindo-se dos virtuosismos do progressivo.
O vocalista McManuns era conhecido pelo seu falsete estridente, que ameaçava estalar numa gargalhada, enquanto Mcmahon e Morton eram os responsáveis pelo destilar de riffs afiados como lâminas. Esta aparente ferocidade - os concertos dos Electric Eels descambavam sempre em violência -escondia, porém, uma ideia de auto-irrisão. Repara-se na infantilidade demencial da letra de “Bunnies”, na loucura que atravessa “Accident” (tema que pode servir perfeitamente como uma espécie prólogo sonoro para a leitura de Crash, de J. G. Ballard) ou na abordagem do tema da morte em “Natural Situation”. Mas há mais. “Cyclotron”, “Jaguar Ride” ou “Agitated”, por exemplo, merecem um lugar no panteão dos canções mais abrasivas e vertiginosas de sempre.
Tal como os Rocket From The Tombs os Electric Eels encarnam uma história mais ou menos esquecida. Depois de gravarem um single para a Rough Trade, desapareceram. O seu legado encontra-se de algum modo disfarçado no estilo musical que ficou conhecido como pig-fuck (celebrizado pelos Big Black e pelos Butthole Surfers) e tem sido reavaliado pelo out-punk praticado por grupos como os The Asthetics e To Live and Shave in LA.. Recentemente porém foi editada uma compilação, “The Eyeball Of Hel”, que vem possibilitar aos ouvintes mais distraídos encontros, porventura, bastante interessantes. Porque o passado, na música, facilmente se transforma em presente. Ou em futuro.
José Marmeleira
(Mondo Bizarre # 12)
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