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RICHARD HAWLEY
UMA LUZ NO INVERNO

O “side kick” dos Pulp volta à carga no seu percurso em nome próprio. “Coles Corner” é mais um álbum com tudo no sítio, que promete encantar os admiradores de canções em modo crooning.

Concorrido guitarrista de estúdio, membro de várias bandas indie de pouca fama, colaborador dos Pulp (com quem costuma tocar ao vivo) e da lenda Nancy Sinatra, que nos últimos dois anos ajudou a ressuscitar, quer em disco quer na digressão que passou por Portugal. Eis Richard Hawley, um músico de Sheffield cujo grande feito é, no entanto, a criação sucessiva de aconchegantes discos a solo, sem aparente ligação ao tempo e ao espaço em que vive. A aventura como crooner começou em 2001, com um mini-álbum homónimo, e vai bem além de um timbre perfeito para interpretar canções intemporais; Hawley é um compositor de alma própria, que mete no mesmo saco (inspiracional) a obra de Sinatra, Presley ou Scott Walker, assim como os ensinamentos da country e até algum shoegazing.

Sheffield, Inglaterra, em 2005 – dizíamos. Mas “Coles Corner”, o mais recente trabalho do britânico, facilmente nos troca as coordenadas e transporta para meados do século XX, do outro lado do Atlântico. Há mais de América do que de Reino Unido, neste disco cujo título serve de tributo a um desaparecido ponto de encontro da cidade-natal de Hawley.“Coles Corner”, a faixa de abertura do quarto álbum do artista, é a amostra ideal da sua dúbia nacionalidade. “I’m going downtown where there’s music/I’m going where the voices fill the air”, anuncia Hawley com voz de veludo, secundado por um chuveiro de violinos elegantes, contidos. Mesmo para quem nunca tenha posto pé na Big Apple, é complicado ouvir este tema e não pensar numa Nova Iorque coberta de neve. “Just Like The Rain” confirma a imagem mental – estamos longe, desta vez mais a sul, trauteando uma canção country sorridente, solarenga, de letra macambúzia.

As incursões de Hawley pela country são, de resto, acertadíssimas, conferindo ritmo e alegria a “Coles Corner”, um disco inspirado mas confessamente bem-comportado, de passo lento e seguro. “Sempre que sentia que estava a exagerar na orquestração, lembrava-me do Sun Studio: um microfone, uma guitarra”, afirma Hawley no seu site, referindo-se ao mítico berço de Elvis Presley. O Rei é, de resto, presença sub-reptícia em “Coles Corner”, quer na sentida abordagem de Hawley a cada palavra que canta, quer no toque hawaiano de “Hotel Room”, uma balada que também podia ter nascido da devoção dos Whiskeytown por Elvis.

Outro dos momentos notáveis de “Coles Corner” é “The Ocean”, tema escolhido para primeiro single, que à melosidade (boa) das outras faixas adiciona um certo sentido épico, com as cordas a jogarem o papel de reserva de oxigénio, fazendo brotar suspiros nos sítios certos. Romantismo é, afinal, a palavra-chave do sucessor de “Lowedges”. Mas o romantismo de Hawley não quer ter nada a ver com sorrisos amarelos, nem com a ironia tão querida aos seus conterrâneos. É um romantismo de gestos cavalheirescos, puro, que se alimenta de uma voz de casco envelhecido e estará sempre à espera dos fãs de canções, como uma luz acesa atrás da janela de casa, em pleno Inverno.

Lia Pereira
(Mondo Bizarre # 24)